quinta-feira, 14 de julho de 2011

Os Cinco Pontos do Calvinismo - parte 01


Durante o século XVII se firmou a doutrina reformada, calvinista. Dois documentos surgiram como mais fiel expressão do Calvinismo: A Assembleia de WESTMINSTER (1643-1649), e o Sínodo de DORT (1618-1619). Veja que este Sínodo de DORT (Dordrecht) se reuniu antes da assembléia de Westminster. Com que propósito? Gostaria de falar sobre os resultados deste Sínodo e porque foi realizado.

Bem, até mais ou menos 1610, as igrejas da Holanda e outras igrejas da Europa aceitaram o que subscrevia a Confissão de Fé Belga e de Heidelgerg, ambas baseadas nos ensinos da Reforma Protestante.

No ano de 1609 morreu um homem chamado Jacobus Arminius, nascido em Oudewater, Holanda. Era pastor e distinto professor da Univerdade de Leiden, em Amsterdan. Sua formação teológica era profundamente Calvinista, visto que estudou em Genebra sob a orientação de Teodoro Beza, que foi o sucessor de Calvino naquela cidade. Quando voltou de Genebra para Amsterdã, assumiu o púlpito de uma igreja reformada e logo sua fama se espalhou, pois era um estudioso da Bíblia e da Teologia. Sendo assim, foi convidado pelos dirigentes da Igreja de Amsterdã para refutar as opiniões inovadoras de um teólogo chamado Dirck Koornhert, que atacava algumas das doutrinas calvinistas especialmente a questão da predestinação.

Armínio começou a estudar as posições teológicas de Koonhert e chegou a conclusão de que ele estava certo. Dessa forma o “tiro saiu pela culatra”. Como Armínio era professor de renome, suas opiniões foram publicadas e difundidas. O ponto principal do pensamento Arminiano, contrário ao Calvinismo, era com relação à ELEIÇÃO. Segundo ele, Deus predestinou os eleitos porque sabia de antemão que eles teriam fé em Jesus Cristo e não que os elegera para que pudessem ter fé. No restante da doutrina, era Calvinista (Batismo, Santa Ceia).

Ele Morreu em 1609, mas os conflitos por causa das suas posições teológicas continuaram. No ano seguinte à sua morte, 1610, os arminianos redigiram um documento - REMONSTRANTIA (demonstração) - que incluia cinco artigos que tratavam das principais questões em disputa. Resumidamente são estes cinco pontos:

1) - Capacidade humana - Livre arbítrio. Ensinava que o homem, mesmo caído, era capaz de exercer fé em Deus e receber o Evangelho, tomando assim, posse da salvação para si mesmo. Não eram, portanto, totalmente caídos e incapazes de escolher o bem espiritual.

2) - Eleição Condicional - Deus sabia quem haveria de crer e por isso os elegeu. Ou seja, uma eleição condicionada a fé que o homem teria como fruto do seu arbítrio. Condicionada a sua capacidade de ter fé.

3) - Expiação Geral ou Universal - Cristo morreu para salvar todos os homens, ou seja, potencialmente morreu por todos, mas sob a condição de crerem. Assim, só alguns seriam salvos. Então esta expiação é só para os que crêem. Para os que têm capacidade de crer.

4) - A obra do Espírito Santo na regeneração é limitada pela vontade humana. Assim, quando os Espírito Santo fala ao coração humano para trazê-lo a Cristo, este homem pode resistir e frustrar os propósitos do Espírito Santo.

5) - Cair da graça - Perder a Salvação. Veja que esta é uma dedução lógica de todo o sistema apresentado. Se o homem é que toma a iniciativa de aceitar ou rejeitar a salvação, então tem que assumir a responsabilidade de ficar fiel e perseverar até o fim. Depende dele. Portanto, por falta, descuido e falta de fé e perseverança, pode perder a salvação. O regenerado poderia serdesregenerado.

Ora, por causa desses ensinos estranhos e inovadores foi que os Estados Gerais dos Países Baixos (Holanda) convocaram uma grande Assembléia Eclesiástica - O Sínodo de Dort (1618-1619). Era composto de trinta e cinco pastores e um grupo de presbíteros das igrejas holandesas, cinco catedráticos de teologia dos Países Baixos, dezoito deputados dos Estados Gerais e vinte e sete delegados estrangeiros. Foram 154 sessões. As primeiras trataram de problemas administrativos. Decretaram que se produziria uma nova Bíblia em Holandês. Mas o propósito principal era combater o arminianismo com seus cinco pontos estranhos à Palavra de Deus. O resultado foram os chamados cinco pontos do Calvinismo que reafirmaram a posição sustentada pela Reforma e formulada pelo teólogo francês João Calvino. O teólogo puritano Richard Baxter assim se expressou a respeito da Assembléia de Westminster e deste Sínodo de Dort: “Segundo informações de toda história a esse respeito e de outras fontes de evidência, o mundo cristão nunca teve, desde os dias apóstólicos um Sínodo de teólogos mais excelentes do que este e o Sínodo de Dort”.

Às vezes esses pontos são colocados em forma de Acróstico baseado na palavra TULIP, ou seja: T= total depravação; U= Uma eleição incondicional; L= limitada expiação; I= Irresistível graça; P= perseverança dos santos.

São pontos dependentes um do outro. São opostos aos pontos arminianos. A queda do homem no Edem foi total e não pode por isso salvar-se a si mesmo. Se não pode salvar-se, então Deus é que tem de salvá-lo. Se é Deus que Salva, Ele tem de ser livre para salvar a quem quer. Se foi Ele que determinou quem seria salvo, Cristo então morreu na cruz fazendo expiação só por estes (os eleitos). Se Cristo morreu por eles, então o Espírito Santo os chamará irresistivelmente para a salvação. Ora, se a salvação é um ato de Deus desde o princípio, então o fim será de Deus, e os crentes perseverarão até o fim.

Vamos [nas próximas publicações] ver de forma resumida estes cinco pontos do Calvinismo que segundo o Pr. Josafá Vasconcelos, pode levar-nos a um grande despertamento espiritual.

Pr. Josafá Vasconcelos
http://ospuritanos.blogspot.com/ Acesso em 08/05/2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Visão Puritana das Escrituras (parte final)

Uma Análise do Capítulo de Abertura da Confissão de Fé de Westminster
Por Derek Thomas



O Testemunho Interior do Espírito
Seguindo Calvino, a Confissão enfatiza o testemunho interior do Espírito Santo (otestimonium internum Spiritus Santi). Apesar de todas as evidências da autoridade das Escrituras, o homem precisa da preparação interior do Espírito para convencê-lo da sua confiabilidade: "... contudo, a nossa plena persuasão e certeza da infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo que, pela Palavra e com a Palavra, testifica em nossos corações"(Cap. I p.V). A razão para tal não é difícil de se achar. O pecado dentro em nós, a tendência anti-Deus que está enraizada em cada um é um legado recebido de Adão que tem um efeito sobre nossas mentes assim como sobre nosso comportamento: ela produz uma insensibilidade para com a verdade; a isso a Bíblia chama de cegueira ou dureza de coração. Assim como a luz de nada serve para um cego, a Bíblia permanece um livro fechado até que o Espírito Santo o abra. É a verdade exposta por Paulo em I Co 1. Nas palavras de Calvino: "Se nós desejamos providenciar o melhor caminho para nossas consciências — para que elas não fiquem perpetuamente tomadas pela insensibilidade da dúvida ou do vacilo, e para que elas também não hesitem diante das menores discussões — temos que buscar nossa convicção num lugar mais elevado de que razões, julgamentos ou conjecturas humanas, isto é, no testemunho secreto do Espírito" (Institutas I. 4). Esta é uma ênfase que é novamente repetida no capítulo que trata da Fé Salvadora (14). Refletindo sobre o que a Escritura nos diz de como o coração de Lídia foi aberto para que ela cresse, a Confissão da mesma forma enfatiza que "a graça da fé, por meio da qual os eleitos são capacitados a crer para a salvação de suas almas, é obra do Espírito de Cristo nos seus corações...” (14.I.).
Bem no começo da Confissão, encontramos uma ênfase na obra do Espírito Santo: na inspiração e preservação da Palavra de Deus, junto com a necessidade da obra do Espírito em convencer o não crente da credibilidade e do significado da Bíblia. Já que a Confissão é comumente criticada por sua omissão de um capítulo sobre o Espírito Santo, estes pontos precisam ser trazidos na mente. Hoje em dia, a Igreja poderia desejar da Confissão uma afirmação mais clara sobre os dons do Espírito, e possivelmente sobre o batismo do Espírito, mas estas não eram questões de controvérsias no século XVII. Em essência, cada aspecto da obra do Espírito é abordado.

Suficiência
Numa outra seção (L VI), elaborando mais adiante sobre a necessidade da iluminação interior do Espírito de Deus como necessária para o entendimento salvífico das coisas como são re- veladas na Palavra, a Confissão acrescenta uma exposição sobre a suficiência das Escrituras.
"Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressa- mente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens ... " (Cap. I, p.VI).
Duas questões estão por detrás desta afirmação: primeiro, a posição de Roma em reclamar a autoridade da Igreja em matéria de fé e vida; segundo, a tendência dos anabatistas de citar novas revelações do Espírito como algo normativo da fé e comportamento cristãos. A implicação desta afirmação para o fenômeno carismático moderno dificilmente poderia ser mais relevante. Reivindicações de revelações diretas e imediatas do Espírito não têm lugar no pensamento dos teólogos de Westminster.
Várias questões emergem desta afirmação:
I) A Bíblia é completamente adequada para governar cada área de nossas vidas.
II) Sobre a questão da consciência cristã, nós não temos o direito de ir além do que a Escritura claramente colocou. Trata-se de uma imposição, insistir na obediência a qualquer lei feita pelos homens.
III) A Palavra de Deus é a única regra para nos guiar na fé e na vida. Por conseqüência a própria Confissão não deve ser colocada ao lado, muito menos acima das Escritura; A Confissão são padrões subordinados cuja autoridade apenas é derivada da sua conformidade àquilo que diz a Escritura.
IV) Nem tudo que precisamos saber é achado explicitamente e afirmado nas Escrituras. Algumas coisas devem ser inferi das por "boa e necessária conseqüência das Escrituras. Assim as doutrinas da Trindade, batismo infantil e o direito das mulheres de participarem no ceia do Senhor são todas deduzidas das Escrituras. A Bíblia não nos dá descrições mínimas e detalhadas de cada detalhe da vida. No culto, por exemplo, a Bíblia nada tem a dizer sobre horários de culto ou coisas como roupa, ordem de culto, as versões das Escrituras a serem usadas. Aqui nós devemos usar nossas mentes renovadas, ordenadas pelo Espírito Santo, usando tudo que a Bíblia diz, como um guia.

Clareza
Talvez seja a doutrina da clareza da Escrituras, agora muito negligenciada, porém ainda conservada na teologia Protestante, que parece ter um lugar de honra na Confissão de Westminster.
"Na escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em uma ou outra passagem da Escritura são tão claramente expostas e aplicadas, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas" (Cap. 1. p.VII).
A razão para esta ênfase não é difícil de entender. Eles sabiam que existem partes nas Escrituras que seriam difíceis de entender. Jesus não disse que as parábolas seriam dadas para que aqueles que as ouvissem não pudessem entendê-las? (Marcos 4:11-12). Não foi Pedro que disse que achou alguns trechos de Paulo ininteligíveis? (11 Pe 3: 15 -16). É verdade! Porém, os reformadores queriam afirmar algo importante: que cada cristão tem acesso à verdade da Palavra de Deus. Em outras palavras, por detrás desta doutrina da clareza da Escritura está a igual mente importante verdade do período da Refor- ma: o sacerdócio de todos os santos.
Tendo exatamente derrubado o Papa do lugar de autoridade, a Igreja Protestante foi confrontada com o dilema: "Como saber que você entendeu corretamente a mensagem de Escritura a menos que tenha uma interpretação autorizada?". A resposta está na clareza das Escrituras: a mensagem da Bíblia é essencialmente clara. Ao dizer que a Bíblia é "clara", a Confissão está dando uma descrição geral de toda a Escritura, ao invés de sua partes individuais; está falando das principais doutrinas, mais do que da exegese de um versículo em particular. Enquanto Roma apontava para as sucessões dos sacerdotes como intérpretes da verdade, a Igreja Protestante apontava para a Bíblia como um livro para o povo, capaz de ser compreendido pelas pessoas através do uso dos "meios ordinários". Isso foi, é claro, uma "bomba"; isso queria dizer que a maneira de conhecer a Deus e viver para Ele era dar a devida atenção à leitura da Bíblia e à pregação bíblica. Isto é parte da própria essência da Reforma Protestante.

Transmissão
A próxima seção trata da transmissão das Escrituras. Dois pontos são desenvolvidos.
1. A inspiração das Escrituras diz respeito aos autógrafos originais e não a qualquer tradução dos mesmos.
2. As cópias dos originais foram mantidas puras em todas as gerações pelo singular cuida- do e providência divinos.
Esta afirmação não quer dizer que nenhum erro tenha se infiltrado em qualquer um dos manuscritos existentes em nossa possessão. E também não quer dizer que qualquer dos textos originais existe de forma completa e inerrante em qualquer dos manuscritos. O que a afirmação faz referência é que Deus por meio de Seu cuidado e providência singulares, nos proporcionou um número enorme de testemunhas (no caso do NT mais de 5.000: alguns dos Clássicos têm apenas uma!); que existe uma consistência assombrosa entre eles (somente uma referência em mil tem alguma dúvida). Nas palavras de B.B. Warfield:
"Ele tinham a intenção de asseverar que as várias leituras nas várias cópias não evitaram a presença do texto absolutamente puro na multiplicidade de cópias".

Isso quer dizer que a Igreja, pelo uso devido de comparação de manuscritos e análise, pode chegar ao texto verdadeiro e "Admite-se em todos os lados que 98% do texto do NT está além de qualquer disputa e os 2% onde existe algum questionamento real não abalam a certeza de qualquer doutrina Cristã, qualquer que seja a interpretação preferida".[1]
Um ponto importante freqüentemente esquecido é que, para os teólogos de Westminster estava clara a obrigação da Igreja de providenciar para o povo uma tradução "na língua vulgar de cada nação". Seguindo a descoberta de que o próprio Novo Testamento fora escrito em grego comum, ao invés do grego clássico dos acadêmicos, houve um ímpeto de traduzi-lo no idioma moderno daqueles dias. A versão King James (Rei Tiago, de 1611) é baseada no exame dos manuscritos e versões antigas à disposição naquele tempo, no entanto se deveria perceber que os teólogos de Westminster não mencionaram a Versão Autorizada, nem o Textus Receptus (um termo latino que significa "o texto recebido" — apesar de nunca ter sido recebido por qualquer igreja ou reunião ecumênica, ele serve de base para o texto da Versão Autorizada) como o único texto digno de análise. A Nova Versão King James (NKJV) de 1983 usa os mesmos textos base que a King James, porém usa variações de notas de rodapé de outras fontes. Também se tenta traduzi-la de forma mais fiel ao inglês correntemente usado. Ambas as traduções tendem a uma abordagem da "equivalência dinâmica" favorecida pela Nova Versão Internacional de 1978 (New International Version). A Confissão de Fé de Westminster, no entanto, reflete uma convicção Protestante sobre a necessidade de se fazer traduções das Escrituras que sejam fiéis ao original e que sejam compreensíveis por parte daqueles que as lêem.
Uma outra verdade de grande significação emerge no capítulo de abertura: a verdade que sublinha o princípio hermenêutico reformado que "A regra infalível de interpretação da Escritura é a própria Escritura" (Cap. I, p. IX). Se a Bíblia é o produto do sopro de Deus, como a Confissão insiste, e já que Deus não pode mentir (Hb. 6: 18), segue-se daí que cada palavra por Ele expirada não contém erro (é inerrante). Isto quer dizer que nenhuma parte da Escritura pode contradizer outra parte da Escritura. Ao lermos a Bíblia, este princípio — de que temos o compromisso de harmonizar o que encontramos numa passagem com o que encontramos noutra — tem que prevalecer. "A Escritura não pode falhar", disse Jesus (Jo 10:35) — literalmente: ela não pode ser "fragmentada" ao colocar-se uma passagem em conflito com outra.
O que isto quer dizer é que ao lermos a Bíblia, temos que permitir que outras passagens lancem luz sobre a passagem em mãos. Quanto mais você souber do restante da Bíblia, mais clara se tornará a passagem corrente para você. Freqüentemente uma passagem que, inicialmente parece obscura, pode tornar-se mais clara porque alusões a algo semelhante são feitas em um outro trecho.

Uma Palavra Final Sobre a Autoridade da Escritura
O primeiro capítulo da Confissão termina com uma afirmação que ressalta a autoridade das Escrituras em solucionar cada discussão teológica.
"O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura" (Cap. I p. X).
É uma mensagem primariamente dirigida contra Roma, mas ela pode ser igualmente aplicada às tendências correntes no ensino evangélico. Como já notamos, clamores de que os dons de profecia e línguas existem hoje, devem ser confrontados com o fato de que estes dons eram formas de revelação, acompanhadas de toda autoridade de tais revelações. Reivindicar a fórmula "Isto é o que diz o Senhor", como fazem os carismáticos, formalmente implica numa reivindicação de uma revelação divina. "Em princípio existe alguma diferença entre um protestante afirmar pronunciar revelações imediatas através de profecia e línguas interpretadas, e um Católico Romano afirmar as revelações por meio do ofício de ensino da igreja?", pergunta Sinclair Fergunson? A aproximação entre “cristãos carismáticos” Protestantes e Católico-Romanos sugere que esta visão é frequentemente compartilhada de forma inconsciente.[2] Ela apenas sublinha quão continuamente relevante é o capítulo de abertura da Confissão de Fé de Westminster no final do século vinte.


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[1] Rowland S. Word, A Confissão de Westminster para a Igreja Hoje (Igreja Presbiteriana do Leste da Austrália, 1992), p.21

[2] “Como a Bíblia Olha Para Si Mesma”, em Inerrância e Hermenêutica: Uma Tradição, Um Desafio, Um Debate editado por Harvie M. Conn (Daker, 1988), p.61

http://ospuritanos.blogspot.com/ Acesso em 11/03/2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Visão Puritana das Escrituras (parte 1)

fenômeno do falar

em línguas e a profecia
Uma Análise do Capítulo de Abertura da Confissão de Fé de Westminster
Por Derek Thomas

A composição da Confissão de Fé de Westminster constitui a realização central da Assembléia de Westminster e, provavelmente, a maior aquisição do século XVII. Ao avaliarmos o seu valor nós consideraremos apenas o seu capítulo de abertura, DAS SAGRADAS ESCRITURAS, que é uma avaliação extensiva e cuidadosamente redigida da natureza das Escrituras.
B.B. Warfield escreveu certa vez sobre a importância deste capítulo:
"Certamente não há em todo o conjunto da literatura confessional nenhuma exposição de doutrina concebida de maneira tão nobre, ou tão habilmente trabalhada como o capítulo' Das Sagradas Escrituras', que os teólogos de Westminster colocaram no topo da Confissão, e colocaram-no como o fundamento do seu sistema de doutrina".[1]
Warfield cita Schaff, o historiador da Igreja que assinalou:
“Nenhum outro símbolo Protestante tem uma exposição tão clara, judiciosa, sensata e exaustiva deste artigo fundamental do Protestantismo”.[2]


O fato de este capítulo ser colocado em primeiro lugar, antes de qualquer consideração sobre Deus ou Cristo (como outras confissões o fizeram) não se trata de um acidente de composição. Mas reflete a convicção dos teólogos de Westminster de que toda teologia que sabemos de Deus é baseada naquilo que o próprio Deus revelou-nos nas Escrituras. A Bíblia é, nas palavras de Calvino[3], nosso "guia e mestre" em cada área da vida. O fato de a Bíblia ser a Palavra de Deus escrita forma a pressuposição básica sobre a qual toda e qualquer outra doutrina é formulada. Segue-se a isso que uma visão defeituosa das Escrituras leva a uma teologia defeituosa.
O capítulo começa com uma afirmação sobre a Escritura:


"Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, todavia não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessários à salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna a Escritura Sagrada indispensável, tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo" (Capítulo I. p. I).
A relevância desta afirmação vai muito além de urna simples exposição escriturística. Ela contém uma afirmação de tremendo significado sobre a revelação em geral. Todo homem tem implantado dentro de si um conhecimento de Deus, ou como Calvino coloca, "a semente da religião". Mesmo sem a Bíblia o homem natural está consciente da bondade, sabedoria e poder de Deus. É isto, naturalmente, que Paulo deixa claro no capítulo de abertura de Romanos, uma verdade que é fundamental para tudo que ele vai dizer mais adiante. A consequência desta revelação é que o homem é indesculpável. Se ele reconhece a real revelação de Deus é outra questão: o homem natural se apropria da verdade em injustiça. Porém esta supressão da verdade não invalida de modo algum a genuinidade da revelação. Todo homem sabe mais do que está preparado para admitir. Mas a revelação geral não traz consigo a mensagem redentora. Ela diz aos pecadores nada mais do que Adão em sua inocência sabia. Ela não dá qualquer indicação de que Deus pode perdoar aqueles que quebram a Sua Lei. Ela convence do pecado, porém não oferece qualquer esperança de perdão. Ela prega a Lei, mas não o Evangelho. Por isso, Deus decidiu assegurar que sua mensagem de perdão por meio da fé em Jesus Cristo fosse escrita na forma de um registro permanente. A afirmação da Confissão de Fé é um testemunho de que a Bíblia é mais do que um simples registro de revelações passadas de Deus através dos séculos; ela é em si mesma uma revelação de Deus. Ao produzir a Bíblia, Deus estava revelando-nos o que precisamos saber para nossa salvação.


A afirmação de abertura contém uma negação da continuação de revelações da parte de Deus. Tudo que precisamos saber foi escrito na Bíblia, e todas as assim chamadas revelações privadas cessaram. Isto tem relevância para um problema contemporâneo: o fenômeno do falar em línguas e a profecia. Se profecia e línguas são novas revelações — como elas sem dúvida são no NT — elas são rejeitadas e não admitidas até ao ponto que concerne esta afirmação da confissão.

Inspiração e Cânon
A segunda afirmação do capítulo de abertura é uma afirmação do cânon da Escritura. Para esclarecer melhor, uma terceira afirmação descar- ta os escritos apócrifos como sendo Escritura. Além disso, a segunda seção acrescenta uma afirmação curta, porém crucial no sentido de que todos os livros canônicos foram "dados por inspiração de Deus para serem uma regra de fé e prática". A expressão "Inspiradas por Deus" (as referências Bíblicas foram acrescentadas mais tarde como notas, na Confissão, mas indicam as passagens das Escrituras que eles tinham em mente ao formularem esta Confissão) traduz uma única palavra grega, theopneustos, que quer dizer "soprado por Deus" — expirada, poderíamos dizer, e uma tradução mais acurada do que ins- pirada. Esta é uma referência não tanto para os escritores, mas para os seus escritos: toda Escritura vem de Deus. Em outras palavras, o que os teólogos queriam dizer com inspiração é que homens escreveram precisamente o que Deus queria. Ao citarem 11 Pedro 1:21 eles estavam se referindo àquela expressão, "movidos" pelo Espírito Santo que capacitou os homens a falarem da parte de Deus e escrever de Deus. Deste modo, as palavras das Escrituras são as próprias Palavras de Deus: elas são os oráculos de Deus, citando a frase de Paulo (Rm. 3 :2). Segue-se também que a parte do homem na produção das Escrituras foi meramente transmitir o que recebeu. "Teologicamente", escreve 1. I. Packer: “... a Bíblia encara os escritores humanos como nada tendo contribuído, e as Escrituras como sendo inteiramente a criação de Deus”.[4]
Dois corolários emergem da inspiração. A primeira é o cânon das Escrituras: para que um livro seja canônico ele deve ser inspirado e a tarefa da Igreja no estabelecimento dos limites do cânon era de discernir se os escritores eram ou não inspirados. Ao reconhecer esta qualidade, a Igreja não conferiu autoridade a escritos humanos, mas simplesmente reconheceu a autoridade inerente ao próprio escrito. O segundo corolário tem a ver com a autoridade, e a Confissão fornece uma exposição separada para isso:
"A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de Deus" (Cap. I p. IV).
A autoridade bíblica se apóia na inspiração bíblica. A autoridade das Escrituras se apóia no fato que Ele a deu. Por que deveria eu acreditar no que a Bíblia diz e obedecer o que ela ordena? Porque a Escritura é nada menos do que o falar de Deus a nós dirigida: "O VT em Hebraico ... e o NT em Grego ... sendo inspiradas imediatamente por Deus ... "[5] (Cap. I p.VIII). As palavras da Bíblia são nada menos que "o Espírito Santo falando" (Cap. I p. X). O dobrar-se perante as Escrituras resume a pura religião. É o Cristianismo!


Inerente a esta exposição da confissão de fé está uma crença na infalibilidade ou inerrância da totalidade das Escrituras. A doutrina da Confissão é o dainspiração plenária: tudo que for Escritura é inspirado. Segue-se a isso como Warfield insistiu tão vigorosamente, que a afirmação da Confissão sobre inspiração exige a veracidade e confiabilidade total de tudo que as Escrituras dizem. Nada nos faz concluir das pesquisas e estudos modernos das Escrituras que a Bíblia contenha erros em algum ponto. Essa é a pedra de toque do evangelicalismo hoje. O capítulo de abertura da Confissão de Fé de Westminster não encontra nem um mínimo de falta neste exato ponto.

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[1] Assembléia de Westminster e sua Obra. (Mack, 1972), p.155
[2] Ibid. Warfield está citando "Os Credos da Cristandade", I 877,p. 767
[3] Os teólogos de Westminster tomaram emprestado de Calvino na produção deste primeiro capítulo, vide B.B. Warfield, Op. cit., p. 161

[4] "A Inspiração da Escritura", A origem da Bíblia, ed. P. W Confort (Tyndale, 1992), p. 33
[5] A oitava seção deste capítulo foi considerada tão importante, que uma conferência especial foi feita entre certos membros da Câmara dos Comuns e os Teólogos da Assembléia.

http://ospuritanos.blogspot.com/ acesso em 11/03/2011

terça-feira, 14 de junho de 2011

Evangelicalismo, Movimento Carismático e Retorno à Roma

por
John W. Robbins


O derramamento do Espírito Santo no Século XVI levou milhões de pessoas a redescobrirem a mensagem objetiva da Bíblia acerca da justificação somente pela fé. Essa doutrina invadiu e transformou a mente dos homens com o poder divino e mudou o curso da história. A Reforma Protestante foi fundada sobre a base da restauração da primazia, supremacia e total suficiência da Bíblia e da justificação pela fé.
Ninguém coloca em discussão o fato de a Reforma Protestante ter restabelecido completamente a pureza da fé e da prática que é apresentada na Bíblia. Nem sempre os Reformadores concordavam entre si. Nem sempre eram consistentes em cada área. Tampouco a igreja abandonara de vez todos os erros da Igreja/Estado Romana da Idade Média. Mas apesar das diferenças e das inconsistências, os Reformadores estavam totalmente unidos quanto à importância da Escritura e da justificação somente pela fé — seus significados objetivos e sua centralidade absoluta para a fé cristã.
Há uma tendência na natureza humana pecaminosa de afastar-se do Evangelho objetivo para o subjetivismo religioso, de deslocar o foco central de Cristo para a experiência cristã. Isso foi o que aconteceu na grande “decadência” da Igreja Primitiva. E a mesma evolução tem dado lugar entre os herdeiros do movimento protestante.

O Erro das Seitas
Antes ainda da saída de cena dos Reformadores, diferentes grupos ou seitas (defensores de ideais de igrejas livres) começaram a proliferar-se dentro do movimento protestante e a devastar as igrejas recém plantadas. Esses grupos diziam que Lutero havia feito um bom começo quando restaurou a doutrina da justificação pela fé, mas nutriam o sentimento de que ele ficara apenas no meio do caminho e que deveriam seguir adiante, rumo ao mais alto e ao mais profundo.
Mas Lutero compreendia que eles se equivocavam acerca das doutrinas-chave do Protestantismo — somente a Bíblia, e a justificação somente pela fé — e, no que lhe concernia, se estavam errados nestes pontos, em tudo estavam errados. “Seja quem for que se afaste do artigo da justificação não conhece a Deus, é um idólatra”, escreveu Lutero. “Uma vez removido este artigo, nada mais permanece senão o erro, hipocrisia, impiedade e idolatria, ainda que tenha aparência de estar à altura da verdade, da adoração a Deus, santidade etc..” (What Luther Says [Concordia Publishing House, 1959], Vol. II, 702-704).
Os mestres sectários não negavam a justificação como um passo inicial na vida cristã. O erro deles residia no antigo descaso da justificação como se fosse aquilo sobre o que o crente dá inicio e depois passa para coisas superiores. Com isso, a justificação pela fé nem de longe ocupava uma posição central. O foco deles afastava-se para além da obra de Cristo para a ação deles próprios, do objetivo para o subjetivo.
No tempo dos reformadores, os munzeristas e os anabatistas radicais exaltavam grandemente a obra e os dons do Espírito. O clamor deles era, “O Espírito! O Espírito!” mas Lutero respondia, “eu não seguirei para onde o espírito deles lhes dirige”. Eles separavam o Espírito da Palavra, da Escritura. Eram os carismáticos do Século XVI.
Lá, então, encontramos Osiander. No inicio ele foi discípulo e colaborador de Lutero, mas rompeu com o ensino da Reforma da justificação por imputação (externa) da justiça e começou a ensinar que o crente é justificado pela habitação de Cristo e pela sua justiça essencial disso decorrente. Tanto Lutero como Calvino reconheceram que o ensino de Osiander representava uma volta, em principio, à idéia católica romana de justificação. Algumas das seitas, desses grupos ou igrejas livres, perderam o rumo do Evangelho quando tentaram ultrapassar a justiça que é pela fé, buscando um estado de impecabilidade absoluta nessa vida mortal sobre a Terra. Os reformadores também reconheceram que era realmente o perfeccionismo católico-romano vestido de nova roupagem.
Depois da Era dos Reformadores, o movimento protestante chegou ao período conhecido como de ortodoxia protestante. Heresias foram resistidas pelas cuidadosas definições e redefinições da fé protestante. Na Alemanha, o pietismo surgiu como uma reação contrária à hipocrisia da Igreja Estatal Luterana formalmente ortodoxa. Mas a tendência definitiva do pietismo era distorcer o Evangelho objetivo com ênfase exagerada na experiência. Muito do pietismo alemão recapturou o espírito dos grandes místicos católicos romanos e se lhes assemelhou em suas devoções cristãs sentimentais (e até mesmo efeminadas).

Wesleyanismo
A Inglaterra do Século XVIII presenciou um notável movimento que inclusive foi também uma reação ao formalismo da Igreja Anglicana. A verdade da justificação somente pela fé tinha sido perdida pela maior parte da igreja. Eram dias em que os párocos caçadores de raposa amavam mais os seus cães de caça do que o seu rebanho. Além disso, havia uma crescente classe operária, excluída e desconsiderada por uma igreja indiferente. John Wesley foi um dos homens mais influentes do Século XVIII. Sua influência na vida nacional de toda a Inglaterra (em especial na classe operária) foi tão marcante que alguns creditam ao seu ministério o livramento da Inglaterra de uma revolução semelhante àquela em que foi mergulhada a França.
John Wesley aparentava crer na justificação somente pela fé. A sua fixação, entretanto, era com a santificação. Tinha sido profundamente influenciado pelo pietismo morávio e com certeza pelos místicos católicos romanos. A ênfase de Wesley na santificação foi dos principais pontos fracos do Movimento de Metodista. Junto com a justificação pelo sangue de Cristo, Wesley enfatizou o poder renovador Espírito Santo para se viver em conformidade com a verdadeira obediência à Lei de Deus. Aparte da obediência santificada à Lei de Deus, Wesley declarava, nenhuma alma poderia reter a benção da justificação. Isso implicou, naturalmente, em justificação pelas obras. Representou, portanto, uma volta a Roma.
Wesley desenvolveu a doutrina da inteira santificação, conhecida também como “segunda benção” ou “perfeição metodista”. Propôs que após a justificação e um processo de santificação, o crente poderia receber, pela fé, uma segunda benção repentina que removesse completamente da alma o pecado natural, possibilitando a inteira santificação, nada mais que o amor perfeito. Chamou esta experiência de “uma salvação ainda mais elevada”, “imensamente maior do que quando alguém foi justificado” (Plain Account, 7). Wesley e seus pregadores desafiavam seus ouvintes a procurarem essa segunda benção da perfeição com toda a diligência. Assim fizeram, e deram prova dela por meio de vidas de séria (às vezes frenética) piedade.
Com Paulo e Lutero, a justificação somente pela fé era a verdade plena do Evangelho. Mas no Wesleyanismo, a centralidade e a total-suficiência da justificação foram perdidas, ficando esta subordinada à santificação. A própria justificação podia ser perdida pelo fracasso dos crentes em perseverarem nas boas obras.
Entretanto, ainda que tenha pregado isso a outros, até os seus últimos dias, Wesley confessava que francamente não tinha alcançado a sua famosa “segunda benção”. Ele sempre a perseguiu, mas apenas conseguiu alcançar a esperança dela. Era por demais humilde e franco em confessar que apesar de tudo ele sentia pungente o pecado dentro dele.
Infelizmente, nem todos os seguidores de Wesley eram tão prudentes ou tão humildes quanto o fundador do metodismo. Alguns professaram que tinham alcançado a segunda benção da inteira santificação. Alguns eram pregadores, sendo que uns deles chegaram logo a cair na tentação de se imaginarem superiores a Wesley. O reavivamento metodista foi conseqüentemente submetido ao arminianismo e ao fanatismo. O fanatismo não aflorou enquanto por muito tempo os metodistas procuravam a perfeição. Isso emergiu quando alguns reivindicaram tê-la alcançado.

O Reavivamento Americano e o Movimento de Santidade
O Protestantismo Americano do Século XVIII e do começo do XIX veio se tornar herdeiro do fervor religioso do metodismo. Os EUA desenvolveram o seu próprio estilo e marca registrada de reavivamento. Este talhou o temperamento nacional que foi moldado pelo espírito de fronteira.
A vida na fronteira era crua, rude e excitante. Algumas das pessoas de fronteira viam igrejas ou pregadores muito pouco, talvez uma vez por ano em um encontro de reavivamento feita em grandes toldos, as tendas. Assim como os bezerros que iam crescendo e precisavam ser reunidos num lugar para uma vez por ano serem marcados, a juventude, da mesma forma, precisava ser reunida para ser “salva”, enquanto o pessoal mais velho sentia a necessidade de uma boa “limpeza” assim como no tempo do reavivamento. Assim, Vinson Synan, historiador do pentecostalismo, disse muito bem: “Os que atendiam a tais encontros em acampamento... geralmente esperavam que suas experiências religiosas fossem tão vividas como a vida na fronteira que os cercava. Acostumado com 'briga com ursos e guerra com índios', eles receberam essa religião de grande colorido e excitamento”. (Vinson Synan, The Holiness-Pentecostal Movement in the United States [Eerdmans Publishing Co., 1971], 25). Por vezes o fervor religioso foi acompanhado de grandes excessos emocionais tal como “"ivina histeria”, quedas, convulsões, “riso santo”, latidos semelhantes a dos cães e “danças antigas como as que Davi fazia perante a Arca do Senhor”.
No Século XIX, Charles Finney era um evangelista bem sucedido. Já em 1850, o avivamento dentro do estilo de Charles Finney — se tornou numa espécie de religião nacional dos EUA. A Teologia Sistemática de Finney (ainda hoje um dos mais populares manuais de teologia nas igrejas pentecostais) é muito crítica em relação a Lutero e Calvino face ao ensino deles da justificação pela fé por meio da imputação da justiça que é de Deus. A ênfase predominante de Finney é na santificação e na obra de Deus no contexto da experiência humana — uma ênfase que não é bíblica nem reformada. Sua pregação levava as pessoas à verdadeira experiência de crise emocional e a uma busca posterior de uma experiência santidade que poderia ser aceitável a Deus.
Em todas essas influências avivalistas, a ênfase predominante era encontrar com Deus por meio de uma experiência intima do coração verdadeiramente dramática, emocional, empírica. Havia um foco muito pequeno em ser aceitável a Deus pela fé numa justiça não propriamente nossa, mas completamente externa a nós existente na pessoa de Cristo. O avivamento americano era mais subjetivo do que objetivo, mais centralizado na experiência do que centralizado no Evangelho.
Em meados do Século XIX, a Igreja Metodista (que era então a maior igreja dos EUA) experimentou o notável ressurgimento do interesse na doutrina da “segunda benção”. A década de 1840 testemunhou uma enchente de ensino perfeccionista na Igreja Metodista. Líderes pastores, bispos, e teólogos, conduziram o movimento, dando-lhe respeitabilidade institucional e intelectual. Este desenvolvimento espraiou-se para outros corpos protestantes, e em 1869 ficou conhecido como “movimento de santidade”. Publicações independentes sobre “santidade” pulularam por todo o País. O movimento transbordou para a Inglaterra e encontrou expressão na famosa Convenção Keswick.
A ênfase popularizada do movimento de santidade foi na vida vitoriosa cheia do Espírito. Seu ponto focal não era nem na justificação nem na conversão, mas na realização de uma experiência empírica de santidade e inteira santificação subseqüente à conversão. Boardman, Inskip, A. B. Simpson, R. A. Torrey, e Andrew Murray eram alguns dos bem conhecidos escritores e líderes do movimento. O titulo da obra de Hannah W. Smith, O Segredo da Vida Feliz do Cristão (ainda amplamente circulada hoje), expressa muito bem as aspirações dos adeptos da santidade. Outros títulos também dizem por si o que pode geralmente ser detectado, uma experiência maior em vez do Evangelho (A Vida Vitoriosa, Chaves para um Viver Vitorioso, A Vida Cheia do Espírito etc.). A linha seguida por estes livros é geralmente em Romanos 7 e Romanos 8: “Sai de Romanos 7 e entre em Romanos 8” (que, incidentalmente, é decididamente contrário a tudo o que os reformadores ensinaram).
A natureza objetiva e o valor da justificação e do perdão deixaram de ser o centro do ensino do movimento de santidade. Isso tudo foi subestimado, e mesmo rebaixado, devido a preocupação dominante com a experiência religiosa e o perfeccionismo. O movimento de santidade seguiu pelos corredores formados pelas rochas do subjetivismo, e por essa causa, veio estar mais em harmonia com o Catolicismo Romano do que com o ensino da Bíblia. Nos anos de 1890, a Igreja Metodista tomou medidas administrativas contra o movimento de santidade. Conseqüentemente, entre os anos 1890 e 1900, vinte e três denominações de santidade foram fundadas.

O Movimento Pentecostal
Ao fim do Século XIX, muitos dentre o movimento de santidade começaram a falar e a buscar o “batismo de fogo”. Um ramo do movimento de santidade foi chamado de “Igreja Holiness do Batismo com Fogo” (originada em Iowa em 1895 e dirigida por Benjamin Irwin). Quem recebia “o fogo” freqüentemente poderia gritar, berrar, cair em transes, ou falar enrolado. Este “batismo de fogo” foi considerado como uma visitação milagrosa do Espírito que seguia à inteira santificação. Os mestres mais conservadores do movimento de santidade rejeitaram essa “terceira” benção de fogo, por considerarem a mesma coisa a segunda benção e o batismo especial do Espírito.
Mas os radicais defensores do "fogo" continuaram exercendo influência dentro do movimento com ardentes pregações e publicações semelhantes a Live Coals of Fire – Brasas Vivas de Fogo - (publicado pela primeira vez em outubro de 1899). Este opúsculo falava "do sangue que limpa, do Espírito Santo que enche, do fogo que queima, e da dinamite que arrebenta". Não é difícil imaginar as manifestações excêntricas e desconcertantes que acompanharam o estágio de explosão religiosa que decorreu. O resultado lógico dessa tendência religiosa foi o aparecimento no Século XX do Movimento Pentecostal, cujo inicio é traçado pelo Ministério de Charles Parham em Topeka, Kansas em 1900.
O Dr. Frederick Dale Bruner escreve: "Como resultado dos movimentos de santidade mundiais, nasceu o movimento pentecostal. O historiador pentecostal, Charles Conn, aponta 'que o movimento pentecostal é uma extensão do avivamento da santidade que ocorreu durante a última metade do Século XIX'" (Frederick Dale Bruner, Teologia do Espírito Santo [Edições Vida Nova, 1977], 44). Diz o notório autor católico-romano e defensor da unificação da igreja, Kilian McDonnell: "John Wesley foi o pai do intenso fervor religioso americano do Século XIX, um dos seus filhos foi o Movimento de Santidade de que originou o pentecostalismo do Século 20" (Kilian McDonnell, "The Classical Pentecostal Movement," Vol. I, No. 11 [Maio/1972], 1 ). O movimento pentecostal esteve envolvido diretamente na questão da insistência que o sinal físico do falar em "línguas" era a evidência do batismo do Espírito. Esta questão das línguas causou uma divisão entre o movimento de santidade e o pentecostal, ainda que a teologia básica dos dois movimentos permanece a mesma. O pentecostalismo é o resultado inevitável do avivamento subjetivo. Os avivamentos que ocorreram nos Estados Unidos talvez não fosse do gênero abertamente pentecostal ou carismático, mas eles tendiam para aquela direção porque eram acima de tudo orientados para o experiencialismo religioso.

Tendência em direção a Roma
Por mais de 400 anos, têm sido exercidas influências no âmbito do Movimento Protestante no sentido de corroer a ênfase objetiva da doutrina reformada de justificativa somente pela fé. Isso não passa de uma volta ao romanismo. Há alguns anos, o conhecido autor católico-romano, Louis Bouyer, fez essas impressionantes observações:
A Renovação Protestante ...lembra os melhores e o mais autênticos elementos da tradição católica.... Vemos por toda essa nação protestante, cristãos que tem como sua religião o movimento a que chamamos, no geral, de Renovação, o qual, mais ou menos, não passa de catolicismo.... Os mais valiosos e duradouros reavivamentos contemporâneos em seus resultados em tudo apresentam uma impressionante analogia com o processo de redescoberta do catolicismo.... o rumo que instintivamente se tomam em direção ao catolicismo ... isso pode conduzir ao caminho da reconciliação entre protestantes e católicos”. ( Louis Bouyer, The Spirit and Forms of Protestantism [World Publishing Co., 1964], 186, 188, 189, 197 ).
Bouyer conclui com um apelo para os seus confrades católicos se preparem para a volta inevitável dos "irmãos separados" sob a influência dos reavivamentos contemporâneos. Não faz diferença o fato de que muitos reavivalistas consideram-se anticatólicos, conforme Bouyer anota, eles estão simplesmente no escuro quanto ao fato de que o cerne da sua ênfase está em profunda harmonia com o catolicismo. Se o leitor deseja saber o que Roma pensa hoje sobre os mais populares reavivalistas americanos, pode ficar seguramente bem informado a respeito através da matéria saída em julho de 1972 no Digesto Católico .
A alguns anos atrás, Paul Tillich abordava o tema, "o fim da era protestante",
O tipo de protestantismo que tem sido desenvolvido na América não é bem a expressão da Reforma, mas tem mais elementos do chamado evangelicalismo radical. Há grupos luteranos e calvinistas, que são fortes, mas em grau surpreendente eles têm-se adaptado ao protestantismo americano. Este clima não foi produzido por eles, mas pelos movimentos sectaristas. Assim que cheguei à América, há vinte anos atrás [em 1933], a teologia da reforma era quase desconhecida no Union Theological Seminary [New York] por causa das diferentes tradições, e a redução da tradição protestante avizinhava-se das tradições não-reformadas. O conflito de Lutero com os evangélicos radicais é especialmente importante para os protestantes americanos porque o tipo prevalecente de cristandade na América não foi produzido pela Reforma diretamente, mas pelo efeito indireto da Reforma através do movimento de radicalismo evangélico“.(Paul Tillich, A History of Christian Thought [S.C.M. Press Ltd., 1968], 225-226, 239. Das conferências apresentadas primeiramente em 1953]).
As últimas décadas têm mais do que justificado as observações de Bouyer e Tillich. O movimento histórico de volta a Roma tem-se tornado como aquele lugar onde no Rio Niágara os canoeiros alcançam aquele ponto que não há volta quando as águas se aceleram em direção às cataratas. O movimento tem-se acelerado em sua corrida, e evangélicos e carismáticos estão, a taxas crescentes, sendo re-introduzidos a Roma.

O Movimento Neopentecostal ou Carismático
De 1900 a 1960, o movimento pentecostal continuou a crescer fora do protestantismo convencional. Todavia já em 1960 tinha atingido uma membresia mundial da cifra de aproximadamente oito milhões de pessoas. Naquele tempo, gente como Henry Van Dusen já começava a chamar o movimento de "terceira força" da Cristandade.
Então, próximo de 1960, teve lugar uma mudança notável quando de repente o pentecostalismo começou a ultrapassar linhas demarcatórias denominacionais para penetrar nas igrejas protestantes históricas. Como John Sherrill diz em seu livro, Eles Falam em Outras Línguas, "caíram os muros". Logo havia milhares, e depois milhões, de episcopais, metodistas, luteranos, batistas, presbiterianos, congregacionais e outros, protestantes-pentecostais. Esta fase interdenominational do movimento ficou conhecida como movimento neopentecostal, ou carismático. Não foi um movimento para que houvesse uma denominação separada, mas uma experiência que transcendesse todas as linhas divisórias denominacionais. Os que compartilhavam a experiência em diferentes denominações se viram tendo mais em comum mutuamente entre si do que com os não-carismáticos da mesma igreja. Muitos confiantemente previram que este seria o começo do maior avivamento que o mundo jamais conhecera.
Lá para o fim dos anos 1960, o movimento neopentecostal deu duas de suas mais esplendidas passadas. Ele penetrou na nova cultura jovem e ficou conhecido como o Movimento de Jesus. (Estima-se que noventa por cento do Povo de Jesus, como foram chamados, tiveram alguma forma de experiência pentecostal). Muitos da cultura da droga ficou "alta" com Jesus ao invés de com drogas. Então, para o coroamento do seu sucesso, o movimento neopentecostal entrou na Igreja Católica Romana em 1967. Depois do começo modesto em dois de seus grandes centros de ensino (Duquesne e Universidade Notre Dame), agora se espalha rapidamente na Igreja Católica Romana, atraindo o apoio de cardeis, bispos, milhares de padres e freiras, e o próprio Papa. Visto que os católicos romanos têm agora recebido idêntica experiência pentecostal que os protestantes, os pentecostais da velha linha estão re-avaliando a sua atitude para com o catolicismo romano. Tradicionalmente antipapais, as igrejas pentecostais clássicas estão mudando sua posição, do "pentecostes" têm-se mudado para Roma.
Embora o pentecostalismo tenha sido introduzido na Igreja Católica Romana inicialmente por pentecostais protestantes, tem encontrando menos resistência em círculos católicos do que em círculos protestantes. De fato, como muitos autores católicos estão apontando, o pentecostalismo se sente em casa na Igreja/Estado Romana. Está mais em casa lá porque a ênfase dominante pentecostal na experiência subjetiva está em harmonia essencial com o ensino e tradição da Igreja Romana. Diz o monge beneditino, Edward O'Connor da Universidade Notre Dame:
Embora tenham se originado da plataforma protestante, as igrejas pentecostais não são tipicamente protestantes em suas crenças, atitudes ou práticas.... não se pode pressupor que o movimento pentecostal represente uma incursão da influência protestante [dentro da Igreja Católica Romana]. ... Católicos que têm aceitado a espiritualidade pentecostal tem-se deparado que esta está em harmonia com sua fé e vida tradicionais. Eles a experimentam, não como um empréstimo de uma religião estranha, mas como um desenvolvimento natural de sua própria ... a experiência do movimento pentecostal tende confirmar a validade e relevância de nossas autênticas tradições espirituais. Outrossim, o desenvolvimento das igrejas pentecostais hoje parece seguir através de estágios muitos parecidos o que ocorreu nos primeiros anos da Idade Média quando a doutrina clássica estava tomando forma ( Edward O'Connor, The Pentecostal Movement in the Catholic Church [Ave Maria Press, 1971], 23, 32,28, 183, 191, 193, 194 ).
Além disso, o neopentecostalismo não faz nada no sentido de perturbar a fé católico-romana e suas igrejas e tradições. Diz O'Connor:
Semelhantemente, as devoções tradicionais da Igreja têm-se revestido de mais significado. Algumas pessoas têm sido levadas de volta para o uso freqüente do sacramento da penitência através da experiência do batismo do Espírito. Outras têm descobertos em suas vidas um lugar para devoção à Maria, enquanto que antes mantinham repulsas ou indiferença para com ela. Um dos mais extraordinários efeitos da ação do Espírito Sagrado tem sido o de promover a devoção à Presença Real na Eucaristia. (Edward O'Connor, Pentecost in the Catholic Church [Dove Publications, 1970], 14, 15 ).

O Movimento Carismático e Roma
Os anos de 1970 nos trouxeram para a grande fase ecumênica do reavivamento e do movimento carismático. Em 1º de fevereiro de 1972, a revista Christianity Today escreveu em editorial:
Ao que parece, a força que se apresenta como a maior contribuição para o atual avivamento que varre a face da Terra é o pentecostalismo. Este movimento, que começou a várias décadas atrás, e que em seus anos iniciais tinha o caráter muito sectário, agora é ecumênico no seu sentido mais profundo. Parece que ultimamente o neopentecostalismo tem incluído muitos milhares de católicos romanos.... Uma nova era do Espírito tem começado. A experiência carismática mexe com os cristãos em coisas que vão além da glossolalia.... Há uma luz no horizonte. Uma renascença evangélica está-se tornando visível ao longo da rodovia cristã, das fronteiras dos grupos sectários aos altos lugares da comunhão católico-romana. Parece ser este um dos momentos mais estratégicos da história da Igreja.
Em maio de 1972, matéria da New Covenant (publicação católica carismática) destaca os católicos e os protestantes unidos numa grande confraternização carismática. Proclama-se que o movimento carismático mantém a esperança de cura das feridas abertas no Século XVI . Destaque para Henry Van Dusen do Union Theological Seminary que teria dito:
A presença do movimento carismático (pentecostal) entre nós diz-se que é para marcar uma nova era no desenvolvimento da cristandade. O novo pentecostalismo parecerá aos historiadores do futuro a "verdadeira reforma " (comparada à do Século XVI) da qual nasce a terceira força do mundo cristão (protestante-católico-pentecostal) (19).
Essa união não está fundamentada na verdade objetiva, mas na experiência subjetiva. A cristandade americana está afogando num oceano de subjetivismo religioso. A literatura carismática (e ai incluímos todo este reavivalismo subjetivo) está infestando a terra como as rãs do Egito (ver Apocalipse 16:13, 14). Nunca se viu uma massa de literatura tão destituída do Evangelho de Cristo. Praticamente não existe sequer um pensamento objetivo, extrínseco. É tudo na base do "já que é assim, então é desse jeito”, uma volta ao misticismo medieval, efeminado, sentimental. Não é de estranhar que um dos pontos de diálogo entre os líderes pentecostais e os da Igreja Católica Romana é a semelhança notável entre o pentecostalismo e o misticismo católico. O fato aterrador é que o desmoronamento das resistências protestantes ao movimento carismático ilustra a decadência das igrejas protestantes. Até mesmo o termo Protestante está se tornando uma palavra suja. E ser crítico ao romanismo virou agora uma obscenidade nos círculos evangélicos.

O Cumprimento de Profecia
Multidões estão exultantes por causa da igreja que tem sido impactada pelos fogos do reavivamento. Não se trata de uma moda passageira, mas de um notável cumprimento de profecia bíblica. Partamos do principio que os protestantes tenham geralmente aceitado o fato de que a besta semelhante a leopardo de Revelação 13 era o símbolo do papado, que dominara a civilização européia por aproximadamente mil anos. Munida da verdade objetiva da justificativa somente pela fé, a Reforma provocou no "homem do pecado" a "ferida fatal". Ao quebrar a camisa de força do pensamento papal, as nações começaram a se libertar da dominação papal (ver Apocalipse 13:3). Mas a profecia do Apocalipse claramente prediz uma restauração da força da igreja antiga para dominar as mentes e escravizar as consciências dos homens. O profeta declara:
E operava grandes sinais, de maneira que fazia até descer fogo do céu à terra, à vista dos homens; e, por meio dos sinais que lhe foi permitido fazer na presença da besta, enganava os que habitavam sobre a terra e lhes dizia que fizessem uma imagem à besta que recebera a ferida da espada e vivia. (Apocalipse 13:13, 14).
"Fogo... do céu... à vista dos homens" é um quadro terrivelmente preciso da religião contemporânea envolvida em fogos do falso reavivamento e do movimento carismático. Fogo que é o símbolo favorito do movimento carismático é o utilizado por Deus para descrever o movimento que nada mais é senão uma contrafação do derramamento do Espírito Santo. Não é realmente fogo do Céu, mas parece ser fogo do Céu. É “fogo do céu... à vista dos homens." Mas, em virtude dessa influência, levará "a terra e os que nela habitavam” a adorarem “a primeira besta, cuja ferida mortal fora curada". ( Apocalipse 13:12).
Os últimos dias serão marcados por grandes decepções religiosas. Operando a pretexto de "fogo...do Céu" (o batismo do Espírito Santo), "os espíritos de demônios" operarão "sinais diante dos reis da Terra, para os congregar para a batalha do grande dia do Deus Todo-Poderoso" ( Apocalipse 16:14; veja também II Tessalonicenses 2:8-12).
Agora mesmo é considerada blasfêmia falar contra a obra sobrenatural levada a efeito no movimento carismático. Um espírito de prepotente certeza e arrogante intolerância tem sido freqüentemente manifesto pelos que "tem o espírito". A preocupação com experiência interior tem dirigido multidões a retornarem à filosofia religiosa da Idade Média e da igreja medieval. O Vaticano sabe o resultado. Lê-se o que é. Muitos protestantes parecem estar tão paralisados quanto Melanchthon esteve quando não soube o que falar, ou não, aos fanáticos espiritualistas que vieram a Wittenberg enquanto Lutero estava escondido no Castelo de Wartburg. Foi essa a questão que foi levada ao grande Reformador que o levou a sair de seu esconderijo e arriscar sua vida. Os líderes "cheios de espírito" conseguiram uma entrevista com Lutera em que clamavam, "O Espírito! O Espírito!" O Reformador decididamente não ficou impressionado. "Eu esbofeteio no focinho este seu espírito", ele trovejou. Ele viu que a grande verdade da justificação somente pela fé estava diametralmente oposta a esses assim qualificados por eles mesmos, "profetas alemães".
Estamos agora vivendo numa época em que as questões do Século XVI têm sido de novo combatidas. Avançando para o final desse tempo o conflito se intensificará. Dobrar-se-ão as velhas linhas demarcatórias denominacionais. O mundo religioso está se agrupando. De um lado, a grande união de católicos romanos, pseudoprotestantes e pentecostais que tem a aparência de ser um movimento para a conversão de todo o mundo. De outro lado, haverá um movimento para restaurar o Evangelho eterno em sua pureza original e força. O Evangelho triunfará. Embora o Anticristo possa ser vitorioso num momento, sua ruína é certa. Uma pequena palavra, e cairá.

Extensivamente revisado e adaptado de um panfleto publicado em 1972 pelo Australian Forum, uma organização aparentemente extinta.
Novembro/Dezembro de 1986

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Traduzido por: Anamim Lopes da Silva
Maio/2005
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quarta-feira, 16 de março de 2011

Uma Análise Bíblica dos Dons do Espírito no Pentecostalismo


por
Rev. Wilbur Bruinsma
Ministro nas Igrejas Protestantes Reformadas

Conteúdo:
I. Os Dons no Pensamento Pentecostal
A. O Falar em Línguas
B. O Dom de Cura
C. O Dom de Revelação
D. Como estes dons são adquiridos

II. Uma Análise Bíblica dos Dons
A. Em geral
B. Especificamente
1. Línguas
2. Curas
3. Revelação

III. Uma Admoestação Concernente aos Dons


Introdução
Estava profundamente envolvido no sermão que então pregava. Parece que a congregação também. O que aconteceu em seguida veio sem qualquer advertência. Eu fui interrompido no meio de uma sentença pelo que soava como o uivo de um cachorro que está sendo sufocado até à morte. Eu parei e olhei para o canto traseiro da igreja, do qual o estranho barulho estava vindo. Minha família, que estava sentada na fileira da frente, quase pulou do banco. Ninguém mais na congregação parecia tão perturbado pelo som. Eles estavam acostumados com ele. Mas esta foi a primeira vez que fui apresentado aos “dons do Espírito” naquela pequena igreja, por detrás da colina, na Jamaica. Aconteceu uma ou duas vezes mais durante o culto, toda vez interrompendo minha pregação.
Depois do culto, perguntei a senhora que tinha interrompido nossa adoração com seus ataques emocionais porque ela tinha feito isto. Ela me disse que não pôde se conter. O Espírito tomou conta de seu coração e voz e ela não pôde conter os gritos ruidosos. Incidentes deste tipo me levam ao meu primeiro estudo sério dos movimentos de Santidade e Pentecostal e suas influências. Isto também me leva a examinar mais cuidadosamente os incidentes particulares de falar em línguas, curas e revelações registrados na Escritura para chegar a um entendimento bíblico deles.
Os dons do Espírito (charismata, que é o termo grego para “dons”) são vitais para a religião Pentecostal. A outorga destes dons do Espírito aos membros da igreja é o dogma sobressalente do pensamento e adoração Pentecostal. Embora o Pentecostalismo reivindique crer em todas as várias verdades da Bíblia, contudo, a impressionante ênfase em seus ensinos e em sua adoração é sobre o batismo no ou com o Espírito Santo. Este batismo resulta em muitos dons, “charismata”, diferentes. Anne S. White, uma escritora, professora e conselheira no movimento carismático durante a década de 1960 e 70, em seu livro Aventuras de Cura , usa 1 Coríntios 12:4-7 para enumerar o que ela crê ser os nove “dons do Espírito” essenciais. “....São Paulo descreveu os nove dons (ou manifestações) como: a expressão de sabedoria...a expressão de conhecimento...fé...dons...dons de cura...a operação de milagres...profecia...a capacidade de distinguir entre espíritos...vários tipos de línguas...a interpretação de línguas”.
Dentre estes nove “charismata”, os Pentecostais colocam uma ênfase maior sobre três: o falar em línguas, o dom de cura e a profecia ou revelação. Há uma proliferação dos escritos sobre estes dons e suas realizações, e eles estão disponíveis por toda a parte. A maioria destes livros usa a experiência pessoal como o fundamento para suas reivindicações de que estes dons do Espírito ainda estão presentes na igreja de hoje. Embora muitas passagens das Escrituras sejam citadas por estes autores, nenhuma das passagens é cuidadosamente analisada de uma forma exegética para descobrir a validade dos “charismata” hoje. O Rev. James Slay, um ministro e professor na Igreja de Deus [denominação], escreveu um livro intitulado Nisto Cremos , no qual ele tenta provar a partir das Escrituras a presença dos dons do Espírito na igreja moderna. Alguns de seus argumentos serão considerados.

1. Os Dons no Pensamento Pentecostal.

A. O Falar em línguas.
Mencionamos que há três dons do Espírito que o movimento Pentecostal enfatiza acima de todos os outros: o falar em línguas, a fé que cura e revelação. Destes três, o falar em línguas é o mais proeminente.
O primeiro incidente registrado do falar em línguas é encontrado no evento que aconteceu no dia de Pentecoste. De fato, foi neste evento que a presença do Espírito e o falar em línguas estão unidos. Este é também o porque aqueles que hoje ainda mantém o falar em línguas são freqüentemente referidos como Pentecostais.
Lemos deste evento em Atos 2:1-4:
E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar; E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.
É a este terceiro sinal da presença do Espírito na igreja, isto é, o falar com outras línguas como o Espírito concedia, que os Pentecostais chamam a atenção. Eles fazem isto porque, destes três sinais, este foi o único que continuou depois do dia de Pentecoste. O milagre que foi realizado naquele dia é facilmente explicado: quando o Espírito entrou no coração dos discípulos de Cristo, eles começaram a falar em “outras línguas”, isto é, a falar em idiomas estrangeiros. Estes homens, que eram simples Galileus e não eruditos em idiomas estrangeiros, repentinamente por intermédio do Espírito Santo começaram a falar em muitos idiomas estrangeiros diferentes de forma que muitos que estavam presentes, procedentes de outros países, puderam entender o que eles pregaram naquele dia. Este sinal do derramamento do Espírito não cessou naquele dia.
Os Pentecostais dirigem nossa atenção ao que eles crêem que são outros quatros exemplos que falam disto no livro de Atos.
O primeiro é encontrado em Atos 8:14-17, onde encontramos a igreja de Jerusalém enviando Pedro e João a Samaria, onde o evangelista Filipe tinha pregado.
Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. Os quais, tendo descido, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo (Porque sobre nenhum deles tinha ainda descido; mas somente eram batizados em nome do Senhor Jesus). Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo.
Embora isto não seja explicitamente declarado, é argüido, e isto razoavelmente, que, quando Pedro e João impuseram as mãos sobre os Samaritanos, o Espírito veio sobre estes Samaritanos de forma que, como resultado, eles falaram em outras línguas. Isto é o porque Simão o Encantador queria comprar o poder para conceder este dom aos outros.
O segundo exemplo do derramamento do Espírito em alguém que resultou no falar em línguas é aquele do próprio Paulo e sua conversão em Atos 9:17,18. “E Ananias foi, e entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Irmão Saulo, o SENHOR Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver e sejas cheio do Espírito Santo. E logo lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e recuperou a vista; e, levantando-se, foi batizado”. Este verso não necessariamente estabelece a reivindicação dos Pentecostais de que Paulo falou em línguas naquela hora, mas estabelece o fato de que o Espírito Santo foi derramado sobre ele. Mais tarde também, em 1 Coríntios 14:18, Paulo testifica o seu falar em línguas.
O terceiro exemplo do falar em línguas foi registrado para nós em Atos 10 e 11, onde lemos da pregação de Pedro do evangelho à família de Cornélio, um centurião gentio. Nos versos 44-46 de Atos 10 lemos:
E, dizendo Pedro ainda estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios. Porque os ouviam falar línguas, e magnificar a Deus.
Neste exemplo não pode haver debate. O milagre de falar em línguas deveras aconteceu na conversão de Cornélio e de sua família.
O quarto e último exemplo registrado em Atos é encontrado no capítulo 19:1-7 onde doze efésios, que ouviram a pregação de João o Batista e foram batizados por ele, agora ouvem o evangelho de Cristo pela boca de Paulo. Paulo explica que João já tinha pregado e batizado no nome de Cristo. Estes homens foram então batizados por Paulo, e o Espírito caiu sobre eles, e lemos que eles falaram em línguas.
Estes são os únicos exemplos que lemos em Atos. Mas a atenção é também chamada pelos Pentecostais para Marcos 16:15-18.
E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.
Nossa atenção é atraída à inegável Palavra do nosso próprio Senhor: este milagre de línguas aconteceria com a vinda do Espírito. O falar em línguas, portanto, foi uma ação que definitivamente aconteceu na igreja primitiva. Isto é evidente, também, em 1 Coríntios 12-14, onde este assunto de forma completa é desenvolvido por Paulo. Obviamente, nas igrejas estabelecidas por Paulo em suas jornadas missionárias, o falar em línguas também aconteceu.
Concernente a estas provas do falar em línguas, o Rev. James Slay escreve (pág.90):
Se tais dons espirituais fossem somente para aqueles que viveram nos tempos Apostólicos, porque o Espírito Santo permitiria que tal informação fosse incluída em Sua palavra? Por que seríamos informados, numa terminologia precisa, sobre o regulamento de um dom se não estava no plano de Deus nos conceder o mesmo? Por que ensinar o filho de indigente como gastar a herança de alguém que não lhe deixou nada?
Novamente Slay escreve (pág. 91):
O batismo do Espírito Santo e o fenômeno de línguas têm uma afinidade que é inequívoca. Esta experiência não é o “fruto do subconsciente” nem é o “balbuciar” de um segmento ignorante da população. Temos evidência escriturística para esta extraordinária manifestação espiritual, e da última nuvem de testemunhas, testificando sua realidade, de forma que tem se chamado a atenção da imprensa nacional.
O argumento que é aduzido pelos Pentecostais, portanto, é simples: a menos que seja trazida uma prova ao contrário, a Bíblia ensina que este dom do Espírito está presente na igreja hoje. Não há razão para crer que este dom desapareceu. A razão pela qual não se pode levar em conta a igreja após o período primitivo é simplesmente esta: a igreja apostatou e negligenciou este dom.
B. O dom de cura
A mesma razão é aplicada ao dom de cura. O próprio Jesus, raciocina-se, gastou a maior parte do Seu ministério terreno curando o povo. A partir de Seu exemplo, é evidente para nós que Ele veio para curar não somente nossas almas, mas nossos corpos também. Foi este dom de cura que Ele prometeu a Sua igreja após o Pentecoste. Novamente, lemos disto em Marcos 16:17-18 (citado acima). Alguns exemplos diferentes foram registrados para nós no Novo Testamento. A Pedro foi dado poder para curar (por exemplo, Atos 3:1-11;5:15). O diácono Filipe, quando pregou em Samaria, curou pessoas que sofriam de paralisia (Atos 8:5-7). Lemos em Atos 6:8 que ao diácono Estevão também foi dado o poder para realizar milagres e maravilhas entre o povo, embora não sejamos informados sobre o que exatamente era isto. O apóstolo Paulo em muitas ocasiões diferentes curou enfermos e expulsos demônios (por exemplo, Atos 14:8-10; 19:11,12).
Como com o dom de falar em línguas, assim também com este dom de cura, os Pentecostais argumentam que se as Escrituras não declaram explicitamente que este dom desapareceu, certamente não podemos erroneamente declarar que sim. Este dom [segundo eles] Cristo ainda dá aos homens de hoje. Nem todo mundo recebe este dom, contudo, somente aqueles que são capazes de se exercitarem poderosamente na fé.
De fato, juntamente com este dom, o carismático tem desenvolvido a idéia completa do poder da oração, uma idéia que tem assolado a igreja pelo mundo inteiro. Eles reivindicam que somente se um crente, que recebeu o poder especial da fé e da oração pelo Espírito Santo, orar o suficiente de forma fervorosa, poderá curar outra pessoa. Ou se isto não acontecer, então, os crentes podem se unir em grupos de oração ou em correntes de oração e invadir o trono de Deus com suas orações que, como resultado, serão capazes de curar o doente! A fé que cura e a oração eficaz fervorosa andam de mãos dados no movimento carismático.

C. O Dom de Revelação.
Finalmente, há também o dom de revelação. Este dom particular do Espírito Santo é baseado na profecia de Joel que Pedro citou em seu sermão no Pentecoste em Atos 2:17,18:
E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, E os vossos velhos terão sonhos; E também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias, e profetizarão;
Aqui, também, é um dom do Espírito, e é enfatizado pelos Pentecostais, que existiu na igreja terrena. Embora os exemplos deste dom não sejam tão freqüentes como os dos outros, eles existem. Por exemplo, em Atos 21:8,9 lemos das quatro filhas de Filipe que profetizaram concernente a captura de Paulo pelos Judeus. Da mesma forma, é afirmado que a igreja em Corinto (1 Coríntios 12-14) esteve profundamente envolvida no profetizar. Destas passagens e de poucas outras, podemos assumir [segundo os Pentecostais] que o dom de profecia ainda continua na igreja hoje. Em nenhum lugar a Bíblia nos informa que este dom não está mais presente na igreja.
Nem é este dom para ser considerado equivalente à pregação, na mente dos Pentecostais. Este costume de algumas igrejas não deixa lugar para a obra espontânea do Espírito . Há aqueles na igreja, contudo, que por uma expressão espontânea do Espírito falam palavras que são extra-escriturísticas. Eles podem ainda hoje prever eventos futuros por meio do Espírito. O Espírito controla o coração e a língua de uma pessoa que está se exercitando no Espírito e a guia para falar coisas que ele não pode controlar, assim como faziam os profetas na antiga dispensação.

D. Como estes dons são adquiridos.
Estes são os carismas , os dons do Espírito. E é sobre o adquirir de tais dons que o serviço de adoração nas igrejas Pentecostais focam a sua maior atenção. Frederick Dale Brunner em seu livro Uma Teologia do Espírito Santo , escreve (págs. 132,133):
As reuniões das igrejas Pentecostais têm sido descritas como centradas no banco da igreja, e a descrição é apropriada. Em contraste com o Protestantismo centrado no púlpito e com o Catolicismo centrado no altar, o Pentecostalismo encontra seu centro na crença da comunidade. Os Pentecostais estão interessados, como alguém colocou, que “nunca alcancemos o ponto no qual nossas congregações sejam compostas de meros espectadores, e não de adoradores participativos”. Para evitar este desvio, os Pentecostais tentam oferecer a cada crente uma oportunidade de ativa e pessoalmente participar na vida da igreja. O foco supremo para esta participação é a reunião da igreja. Aqui os dons encontram a sua mais adequada e proeminente esfera de operação.
Há uma certa excitação no serviço de adoração Pentecostal. Todos na igreja são conduzidos a sentir uma certa expectativa ou prontidão para receber um ou mais destes dons.
Todos os tipos de meios são usados para incitar este alto nível de emoção: música que comove a alma, um alto-falante poderoso, testemunhos, gritos de aleluias e améns, e até mesmo risos. Então, começa a acontecer. As almas são emocionadas e o Espírito é dito entrar na adoração da igreja. As pessoas prorrompem em línguas, outros sobem o púlpito e reivindicam estar interpretando as línguas, enquanto ainda outros trazem uma palavra que Deus lhes disse pessoalmente. Alguns cantam um cântico ou se levantam e dançam. Alguns podem cair no chão e tremerem incontrolavelmente. Geralmente é reservado um período especial para que se dêem oportunidades a homens para que curem os enfermos.
Esta é, então, a experiência Pentecostal. Estes são os carismas – os dons do Espírito.

II. Uma Análise Bíblica dos Dons do Espírito.

A. Em geral
É importante que analisemos os argumentos dos Pentecostais sobre a base da Palavra de Deus. A Palavra de Deus é o padrão objetivo de acordo com o qual todo ensino deve ser provado para se ver se é verdadeiro. Isto significa que não devemos meramente ler de uma forma superficial algumas passagens da Bíblia que parecem dizer algo que elas não dizem. Antes, significa que devemos examinar a Palavra de Deus para ver o que o Espírito verdadeiramente diz a igreja.
Este panfleto não tenciona analisar todos os aspetos dos ensinos dos Pentecostais sobre os dons do Espírito. Seria preciso, sem dúvida, um livro. O que constitui para os Pentecostais ser o falar em línguas apropriado pode ser criticado; o que está atrás das assim chamadas curas “sobrenaturais” pode ser exposto; o uso impróprio da oração pode ser refutado; o abuso e mau uso do serviço de adoração pode facilmente ser criticado. Mas o objetivo deste panfleto é especificamente analisar de uma forma positiva a posição bíblica sobre os dons do Espírito.
Há duas críticas sobre o acentuado exagero do movimento carismático sobre o adquirir dons do Espírito.
Em primeiro lugar, a ênfase que este movimento coloca sobre os dons do Espírito, rouba o povo de Deus da necessidade de conhecimento das Escrituras. Isto não quer dizer que o movimento Pentecostal não cita ou usa muitas passagens diferentes da Escritura. Seus escritos são cheios delas. Nem quer dizer que não há tempo de forma alguma (embora seja pequeno) gasto com a pregação na adoração das igrejas Pentecostais. Mas a ênfase descomunal que é colocada na adoração e vida sobre o adquirir dos dons do Espírito desencoraja qualquer estudo cuidadoso da Palavra de Deus. No prefácio ao estudo doutrinal de James Slay, a confissão é feita:
A Igreja de Deus conhece o que ela crê e prega, e publica o que crê, mas até agora a Igreja não sistematizou isto numa obra definitiva. Que tal obra não tenha sido completada não representa uma falta de interesse na teologia. Antes, isto provavelmente vem de nossa dependência história sobre a absoluta Palavra como nosso guia doutrinal.
Isto é totalmente uma confissão de uma denominação Pentecostal que existia há setenta e cinco anos no tempo da escrita daquele livro! Não há ênfase sobre o conhecimento objetivo das Escrituras. As Escrituras do Velho Testamento são virtualmente ignoradas. O Novo Testamento é usado, principalmente, como um meio para preparar os membros da igreja para receber os dons do Espírito ou o gozo do re-batismo. Que isto é verdade é manifesto na quase total falta de prova bíblica para a alegação deles de que os carismas ainda existem hoje! É também evidente a partir da total indiferença para a verdadeira obra do Espírito ensinada nas Escrituras. Verdadeiramente o que o profeta Amós falou em Amós 8:11 caracteriza este movimento: é uma fome de ouvir a Palavra de Deus!
Uma segunda crítica que pode ser levantada contra este movimento, falando de uma forma geral, é que ele é mais antropocêntrico do que Teocêntrico ou até mesmo Cristocêntrico; ou seja, é mais centrado no homem do que em Deus ou Cristo. A adoração dos Pentecostais não está centrada na pregação da Palavra. Novamente, não é que lá a pregação seja ocasional. Mas há uma pequena ênfase colocada sobre o ouvir a voz de Deus através de uma cuidadosa exposição e explanação de Sua Palavra por alguém que foi chamado e preparado para assim fazer. A adoração dos Pentecostais está, antes, ocupada em se tentar provar aos outros que alguém tem o dom do Espírito nele. A atenção é chamada ao homem que tem a capacidade de falar “de improviso”, por assim dizer, na frente do povo. É atraída ao cantor com a mais bela voz ou aquele que é experiente em fazer sons que possam parecer que ele está falando numa língua desconhecida. Isto gera desapontamento e desespero nas almas infelizes que estão tentando encontrar o Espírito. Eles começam a se sentir como se fossem Cristãos de segunda categoria!
Há outras críticas que também podem ser feitas sobre a ênfase acentuada que o movimento carismático coloca sobre o adquirir dos dons do Espírito, mas desejamos analisar agora de forma positiva a posição bíblica sobre estes dons.

B. Especificamente.
James Slay identifica corretamente o ponto de desacordo entre os Pentecostais e aqueles que negam suas reivindicações. Ele escreve (pág. 92):
Desta experiência (falar em línguas) ter sido somente para o período Apostólico, deve haver alguma razão lógica por não ter sido estendida até o descanso da igreja. Os apóstolos, que tinham, todos, conhecido ao Senhor, necessitavam deste dom especial para sustentar a sua fé?Necessitavam os contemporâneos de Jesus deste sinal extraordinário para convencê-los, a despeito do fato deles também terem visto e ouvido nosso Senhor?
Estas são questões retóricas que Slay pretende responder com um “não”. Nossa resposta a estas questões, contudo, é “sim”! Tanto os apóstolos como a igreja de Cristo naquele tempo necessitaram deste sinal extraordinário para convencê-los da obra do Espírito Santo na igreja! Isto descansa no fato de que o falar em línguas é um sinal! Um sinal! Aqui está um termo que pouquíssimos dão atenção nesta discussão inteira.
Um sinal, na própria natureza do caso, é algo que desaparece quando a realidade chega. Quando vemos um sinal adiante na estrada, avisando que um restaurante está chegando numa certa saída, então, este sinal nos aponta à realidade que está chegando. Quando passamos por esta saída, contudo, não há mais sinal. Por que? Porque quando a realidade chega, então, não há mais necessidade para o sinal. Esta é a natureza de um sinal. Ele desaparece quando é substituído pela realidade.
Bem, tanto o falar em línguas como a fé que cura são sinais. Não foi o que Jesus disse sobre eles em Marcos 16, que “ sinais ” seguiriam ao que cressem?

1. Línguas
Isto é verdade, em primeiro lugar, sobre o dom de falar em línguas. Paulo escreve em 1 Coríntios 14:22, “De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis”. A questão é, do que o falar em línguas é um sinal? Certamente, ele não apontou simplesmente o derramamento do Espírito Santo. Senão, este terceiro sinal do Pentecoste teria cessado no Pentecoste com os outros dois, ou os outros dois ainda estariam prevalecentes na igreja hoje também. O significado do sinal do falar em línguas é encontrado especificamente nisto: ele era um sinal de que o Espírito foi derramado sobre todas as nações, povos e línguas da terra ! Este sinal de falar em idiomas estrangeiros tinha a intenção de provar conclusivamente a cada um que Deus agora reuniria Sua igreja de todos os povos e famílias da terra. A salvação em Cristo através do Espírito não mais seria limitada aos Judeus, mas seria dada aos povos de toda língua, raça e nação debaixo do céu. Disto, o falar em línguas foi um sinal.
Os apóstolos que conheciam a Cristo, e outros que tinham visto e conhecido nosso Senhor, necessitavam deste sinal extraordinário para convencê-los de que a salvação não mais seria dos Judeus somente! Por que os discípulos de Jesus falaram em línguas diferentes do dia de Pentecoste? Para que os Judeus de todo o mundo, Judeus de várias nações do mundo, pudessem ser trazidos a fé e ao arrependimento pela obra do Espírito.
Por que os samaritanos em Atos 8 falaram em línguas depois de Pedro e João imporem suas mãos sobre eles? Para provar, aos judeus céticos que tinham por séculos impregnado neles que a salvação era somente dos Judeus, que os samaritanos agora também compartilhavam, com os judeus convertidos, das bênçãos de Cristo que o Espírito derrama sobre Sua igreja. Os samaritanos eram odiados pelos Judeus como estranhos ao pacto. Agora, Deus provou que os samaritanos seriam uma parte da igreja e do pacto. Como? Quem poderia negar a existência do Espírito em seus corações, se eles falavam em línguas como no dia de Pentecoste?
O mesmo foi verdade quando Pedro foi enviado a Cornélio e sua casa e pregando a eles, foram salvos por meio daquela pregação. Quem poderia crer que os gentios poderiam ser uma parte da igreja, que poderiam ser os objetos da obra do Espírito em seus corações? Mas quando o Espírito operou neles, então, eles também falaram em línguas, o sinal da presença do Espírito. E quando os judeus em Jerusalém contenderam com Pedro sobre isto, Pedro simplesmente disse, em Atos 11:17: “Portanto, se Deus lhes deu o mesmo dom que a nós, quando havemos crido no Senhor Jesus Cristo, quem era então eu, para que pudesse resistir a Deus?” A estas palavras os Judeus, então, responderam no verso 18: “E, ouvindo estas coisas, apaziguaram-se, e glorificaram a Deus, dizendo: Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida”.
Este sinal, sem dúvida, acompanhou a pregação de Paulo em outros lugares também. Acompanhou evidentemente em Éfeso, onde os doze efésios que foram batizados primeiramente no batismo de João o Batista foram agora claramente demonstrados que também foram incorporados por esse batismo no corpo de Cristo. Como foi que a igreja de Éfeso, assim também como Paulo, se asseguraram disto? Estes homens falaram em línguas. Obviamente, este mesmo sinal foi usado na igreja em Corinto. Ele é deveras evidente em 1 Coríntios 12-14. Quando Paulo escreveu a esta igreja, contudo, foi para admoestá-los do seu abuso deste dom. “De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis”. As línguas eram um sinal para provar, àqueles que não criam, que o Espírito poderia ser derramado sobre os gentios, não àqueles que já criam nisto. O tema de Paulo em 1 Coríntios 14:22 é, então, este: por que vocês, que crêem que o Espírito está no meio de vós, continuam usando um sinal que tem o propósito de provar isto àqueles que não crêem neste fato?
No capítulo 12 de 1 Coríntios, Paulo coloca este dom no final de sua lista, em importância. No capítulo 14 Paulo coloca limitações estritas sobre o uso deste dom – a mulher não pode usá-lo no serviço de adoração, nem pode alguém usá-lo, a menos que outro possa interpretar o que é dito. No capítulo 13 Paulo declara literalmente (isto não se constata nas traduções inglesas do grego) no verso 8: “se houver línguas, elas cessaram por si mesmas”. Por que? Qual é a razão lógica de seu fim? Eles foram senão um sinal de que Deus agora reuniria Sua igreja de todas as nações do mundo. Uma vez que este fato, esta realidade, foi estabelecido, não há mais necessidade para o sinal. Ele desapareceu lentamente. A igreja agora conhece que o Espírito opera nos corações de todos os crentes de todas as nações, famílias e reinos deste mundo. Este é o porque não há mais línguas hoje. Isto é o porque elas foram necessárias somente no período apostólico.

2. Curas.
E as curas? Jesus nos disse, em Marcos 16, que elas também seriam um sinal. Do que elas foram um sinal? Bem, elas claramente não significam a mesma coisa como o sinal do falar em línguas. O dom de cura não foi um sinal usado no Pentecoste para provar que o Espírito foi derramado. Paulo, contudo, nos revela que elas eram um sinal. Note: 2 Coríntios 12:12, “Verdadeiramente”, Paulo escreve aos coríntios, “os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas”. Em Atos 4:29,30 o apóstolo Pedro pede a Deus para confirmar os apóstolos por meio do sinal de curas: “Agora, pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças, e concede aos teus servos que falem com toda a ousadia a tua palavra; Enquanto estendes a tua mão para curar, e para que se façam sinais e prodígios pelo nome de teu santo Filho Jesus”. Aqui, foi um sinal que indicou aos outros a autoridade e o poder apostólico. Paulo usou isto para provar àqueles em Corinto que vocalmente questionavam seu apostolado, dizendo que ele não era um apóstolo.
Foi aos doze discípulos, e um pouco mais tarde a setenta homens que O seguiam, que Jesus durante o Seu ministério terreno deu autoridade para expulsar espíritos e curar as pessoas de suas enfermidades. Após o Pentecoste não lemos mais daqueles setenta homens. Lemos somente dos apóstolos realizando a obra de curar outros. Há somente outros dois homens que não foram apóstolos, Estevão e Filipe, a quem foi dada a autoridade para curar. Não lemos de ninguém mais recebendo este poder para curar. Isto foi dado estritamente àqueles homens que foram apontados por Deus para a obra de estabelecimento da igreja do Novo Testamento; foi dado somente aos apóstolos e então, a outros dois que foram instrumentos no estabelecimento da igreja. Quando estes homens morreram, esta autoridade e poder especial para curar morreram juntamente com eles. E isto porque eram um sinal! Não há mais necessidade de provar a autoridade destes homens e de seu ofício especial na igreja, visto que eles agora se foram. A igreja está estabelecida. Os ministros do evangelho foram ordenados para continuar a obra do ministério. A autoridade apostólica não é mais necessária. O sinal não é mais necessário.

3. Revelação.
E sobre o dom da revelação? Não é difícil provar a falácia envolvida na reivindicação de homens ainda possuírem este dom hoje. Alguns meses atrás recebi em meu e-mail os escritos de um homem que reivindicava que Deus lhe falava por revelação direta. Ele estava então sendo afligido por Deus, assim ele explicou, para compartilhar esta tão importante revelação com outros. Assim, ele me enviou a primeira parte com a explicação de que a segunda chegaria em breve. Eu não podia ajudá-lo, mas dei risadas quando li algo do que ele tinha escrita. Gramaticalmente seus escritos eram horríveis! De uma forma muito estranha, ele também tentou escrever num inglês antigo, como se isto concedesse um ar de autoridade ao que ele escreveu. Evidentemente, Deus lhe falou num inglês antigo. Além de tudo isto, o que ele escreveu era sem sentido, algumas delas dificilmente inteligíveis. Eu lhe escrevi de volta e lhe disse que não me interessava na segunda parte do seu escrito.
Alguns anos atrás um pastor de uma rádio Pentecostal declarou à sua audiência que Deus havia lhe aparecido. Ele disse que Deus lhe declarou que se seus seguidores não dessem alguma quantia exorbitante de dinheiro (a quantia me escapa), Deus estaria tirando sua vida. O homem foi capaz em pouco tempo depois de levantar aquele dinheiro e até mais! Vocês vêem para onde a tolice de uma revelação contínua nos leva?
Revelação não era um sinal da obra do Espírito na igreja primitiva. Revelação, contudo, era realmente dada a um homem pelo Espírito. O Espírito usou a revelação para estabelecer o registro objetivo da Palavra de Deus. Uma vez que este cânon da Palavra de Deus foi estabelecido, a revelação cessou. Não há mais necessidade dela hoje. Temos contido nas Escrituras, de acordo com o seu próprio testemunho (2 Timóteo 3:15-17; 2 Pedro 1:19-21), o infalível padrão de toda verdade. Temos nela tudo o que é necessário conhecer para a salvação. Não necessitamos de nenhuma revelação adicional de homens.
Nós vivemos nos últimos dias. João nos diz que nestes últimos dias haveria falsos profetas reivindicando que o que eles dizem é a verdade. João nos informa em 1 João 4, nos primeiros versos, que devemos provar estes espíritos! Como fazemos isto? Julgando o que eles dizem com o que a objetiva Palavra de Deus diz.

III. Uma Admoestação Concernente aos Dons
Há duas precauções para as quais devemos atentar quando consideramos o erro do Pentecostalismo. Primeiro, não é suficiente saber o que não é a obra do Espírito. Neste panfleto expusemos somente o erro com respeito à obra do Espírito. Como crentes somos também obrigados a conhecer qual é a obra verdadeira do Espírito. Tome tempo para estudar isto. O Espírito é o Espírito de Cristo que nos revela a obra de Cristo por nós sobre a cruz. É o Espírito que opera em nossos corações, quieta e poderosamente, as bênçãos da salvação que Cristo mereceu por nós em Sua morte e ressurreição. Estude estas bênçãos!
Uma outra advertência: que nossa adoração e nossas vidas neste mundo sejam teocêntricas, centradas em Deus. Talvez muitos não abraçaram os extremos deste movimento, mas muitos têm aderido aos raciocínios que estão por destras deste movimento. O aspecto da adoração está mudando, a idéia da oração foi alterada, a necessidade de doutrina é desprezada. O sentimento substitui a verdade objetiva! Devemos tomar cuidado para que estas tendências não entrem sorrateiramente naquelas igrejas das quais somos membros! Que possamos permanecer na Palavra de Deus. Que o nome de Deus possa ser glorificado. Possa Ele ser o princípio e o fim de nossas vidas e da nossa adoração. A Deus, que enviou o Seu Filho para morrer pelos pecadores, seja a glória.
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Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 09 de Abril de 2004.
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sábado, 12 de março de 2011

452 anos do Primeiro Culto Evangélico no Brasil

Num país de secular hegemonia católica em que os livros didáticos de história apresentavam até pouco tempo atrás como data a ser memorizada pelos alunos a Primeira Missa no Brasil (quem se lembra?); num país em que os jornais noticiam que ele agora detém a posição de maior país católico e pentecostal do mundo; num país em que se realizou uma Conferência do Episcopado latino-americano na cidade de Aparecida do Norte/SP com a presença do papa cuja temática foi como pano de fundo o cenário da redução gradativa de fiéis por parte de Igreja Católica; num país com esta cultura religiosa nunca é demais lembrar uma data que passa desapercebida do calendário religioso brasileiro – 452 anos do primeiro culto evangélico( ou protestante como se queira) no Brasil.

Por ocasião da efêmera colonização francesa na baía da Guanabara(1555-1560), Nicolas Durand de Villegaignon mobilizou um grupo de calvinistas franceses conhecidos como huguenotes para contribuirem no estabelecimento da França Antártica. A situação dos huguenotes não estava nada favorável na França. No final de 1555 Villegaignon chegou com 400 homens a Ilha Serigipe (hoje Villegaignon) na Baía da Guanabara. Em março de 1557 a colonia foi reforçada por mais 280 pessoas. Entre elas estavam 12 calvinistas de Genebra que traziam credenciais do próprio Calvino. Pierre Richier e Guillaume Chartier, pastores ordenados, celebraram o primeiro culto protestante em terras brasileiras, talvez, nas Américas, no dia 10 de março de 1557. O pregador baseou-se no Salmo 27.4: “Ao Senhor Eterno peço somente uma coisa: que Ele me deixe viver na sua casa todos os dias da minha vida, para sentir a sua bondade e pedir a sua orientação.”


O desfecho da primeira presença protestante mais articulada foi trágica. Villegaignon muda a sua atitude em relação aos calvinistas. Polemiza em torno de questões teológicas e, diante do clima desfavorável, os protestantes decidem voltar à França. Uma parte do grupo por razões náuticas retorna. Cinco são presos e intimados por Villegaignon a se posicionar em relação a pontos teológicos controvertidos. O documento redigido ficou conhecido como “Confessio Fluminense” (primeira confissão de fé evangélica brasileira no dia 8 de fevereiro de 1558). No dia seguinte foram executados três signatários – Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon. Eles ficaram conhecidos como os três primeiros mártires evangélicos do Brasil. Um dos signatários, André Lafon, foi poupado por ser o único alfaiate da colonia e o quinto, Jacques le Balleur conseguiu fugir para São Vicente/SP, mas foi preso e depois enforcado.

O relator desta história foi o sapateiro Jean de Léry. Ele conseguiu voltar para a França, tornou-se pastor e escreveu o livro “História de uma Viagem à Terra do Brasil” (1578).


Torna-se importante trazer à memória dos protestantes, evangélicos e católicos contemporâneos este evento histórico. A afirmação da fé ocorre em meio aos conflitos e às contrariedades da existência humana. O testemunho evangélico acontece em meio à disputa de forças políticas e econômicas. Será que ainda faz sentido uma disputa por hegemonia religiosa nos dias de hoje? Os sensatos dirão que ela é anacrônica, mas a realidade mostra que entre os belos discursos e as boas intenções escondem-se interesses inconfessados. Ou será uma profunda inocência e ingenuidade achar que as religiões não estão no mercado?

Rolf Schünemann

http://reformaeavivamento.blogspot.com/ Acesso em 11/03/2011