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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
O Paradoxo Pentecostal
Há cerca de um século, o mundo protestante se viu invadido por um movimento avivalista que recebeu o nome de movimento pentecostal. Este recebeu tal título por supostamente basear-se nos fatos acontecidos no célebre dia de pentecostes que ocorreu após a ascensão de Cristo aos céus, e que é detalhadamente explicado no capítulo 2 do livro de Atos dos Apóstolos. Segundo seus propagadores todo crente deveria buscar a mesma experiência vivida pelos apóstolos nesse dia, ou seja, segundo eles todos devem falar em línguas (alguns também chamam línguas estranhas). E ainda, segundo suas idéias, isso se dá o nome de batismo com Espírito Santo. Todo crente deve, segundo a doutrina pentecostal buscar essa experiência. Como já dissemos, praticamente um século se passou e muitos, extremamente mal instruídos e preparados não se aperceberam de que o referido texto não fala em batismo. Que essa experiência só se repetiu mais duas vezes, em cumprimento a uma profecia de Jesus. E que falar em línguas é um dom do Espírito Santo, como o são outros oito descritos em I Coríntios 12. Outros líderes, entretanto, mesmo sabendo do engano, seguiram com a doutrina equivocada, mesmo porque já era tarde para reparar o equívoco. Afinal, como explicar para os milhares de membros das denominações pentecostais que eles foram ensinados errado até agora? Seria como se um padre viesse a público e dissesse: não adorem Maria, foi tudo um engano! imagine o caos.
Teólogos renomados, no afã de defender suas fileiras chegaram ao cúmulo de afirmar que só quem fosse batizado com o Espírito Santo, ou seja, falasse em "línguas estranhas", poderia estar à frente do trabalho do Senhor. Coitados. Esqueceram Lutero, Calvino, Spurgeon e Martin Luther King, só para citar os óbvios, que nunca falaram nenhuma língua estranha e tocaram a obra cheios da unção de Deus.
Com o advento do pentecostalismo passou a se ver nas igrejas algumas coisas nunca vistas antes. O que antes era um culto racional tornou-se um centro de emocionalismo exacerbado, onde na grande maioria dos casos as pessoas quase nunca conseguem ouvir a pregação da Palavra de Deus. A coisa chegou ao ponto de pastores recriminarem irmãos que não choram na hora do culto. O barulho alcançou decibéis muitas vezes insuportáveis, e é de se imaginar nesses momentos como Jesus ou Paulo pregavam. Alguém poderia imaginar o Rei dos Reis pulando e correndo enquanto pregava o evangelho da salvação? Ou mesmo Paulo de Tarso pulando em um pé só ou atirando-se ao solo urrando ou gemendo? Mesmo Lutero, será que entraria por essa linha? Essa modificação homilética chegou com o pentecostalismo, que confundiu pregações avivadas, como as de Wesley, com barulho emotivo e vazio. Eis a primeira contribuição prática do movimento. Passagens com Eclesiastes 5:1,2; Habacuque 2:20; Romanos 12:1 e I Coríntios 14:40, perderam completamente o sentido, sendo sumariamente ignoradas.
Com o tempo a coisa foi piorando. Além da exigência infundada de que as pessoas deveriam buscar a todo custo algo que elas já teriam (o batismo com o Espírito Santo), os cultos passaram a ser classificados. Culto frio: onde se prega a Palavra de Deus de forma clara e fiel, sem invenções ou arroubos. Culto quente: onde as pessoas gritam, pulam e se descabelam. Sobem nas cadeiras, saem correndo pela igreja, sacodem uns aos outros e coisa pior. A lista é grande. Lembrando sempre: estas coisas se dão dentro da Casa de Oração do Senhor dos Exércitos. A Palavra de Deus foi perdendo terreno aos poucos. As visões, profecias, arrebatamentos e outros sinais, além das línguas passaram a ser componentes indispensáveis para que um culto fosse considerado com !unção?
Além disso, surgiu uma teologia estranha à Bíblia acerca de vestes, que logo se tornou uma imposição farisaica, e que persiste até hoje.
Interessantíssimo é ver que igrejas da mesma denominação, associação ou convenção, que são regidas pelo mesmo estatuto ou regimento interno, não pregam a mesma coisa. Em uma igreja mulher é obrigada a usar saia. Em outra pode usar calça. Em algumas, brincos são permitidos, em outras são vistos como coisas de satanás. Mas final, não são os líderes mensageiros de Deus? Terá Deus duas palavras? Acredito que não. Algo está errado. Depois de anos e anos de perseguição, as denominações pentecostais estão sendo desmascaradas nesse ponto. E como ficam os crentes de décadas passadas, que foram sumariamente perseguidos por seus líderes nessa questão, e que hoje vêem as coisas mudadas? Será que há trinta anos Deus proibiu uma coisa e hoje esse mesmo Deus liberou-a? Ou será que na verdade não era a voz de Deus que estava falando, e sim a voz do homem?
Observe uma igreja tradicional (por exemplo, uma Presbiteriana ou uma Batista) e veja quantas vezes ela mudou sua declaração doutrinária. Agora veja as igrejas pentecostais e analise a mesma coisa. Estão muito diferentes de quando foram fundadas. Que doutrina é essa?
A partir da metade do século XX algo começou a mudar. Igrejas tradicionais começaram a embarcar nesta onda. O que antes era restrito às denominações pentecostais espalhou-se no meio reformado de raiz. E o que aconteceu? Rachas atrás de rachas. Uma pergunta: Deus se alegra com divisões? E o que o movimento pentecostal mais trouxe ao Brasil? Isso mesmo: divisões. Só para citar um exemplo, a maior igreja pentecostal de Brasil surgiu de uma divisão, quando dois missionários suecos causaram um racha em uma igreja tradicional em Belém (PA) e levaram consigo 19 membros da igreja alheia. Foi isso que Deus os mandou fazer no Brasil? Até onde sabemos missionários andam em busca de almas perdidas, e não daquelas que já estão convertidas.
Quando o movimento invadiu o meio tradicional foi um Deus-nos-acuda! As divisões foram inevitáveis. E então começou um processo chamado tiro no pé. O raciocínio é simples. Assustados com o crescimento vertiginoso das denominações pentecostais, pastores tradicionais se sentiram diminuídos, e passaram a entender que, se cresciam os avivados, é porque o movimento devia estar correto. Tolinhos. As religiões que mais crescem no mundo são o islamismo, o mormonismo e as Testemunhas de Jeová. Estão eles certos porque crescem muito? E a igreja evangélica que mais rápido se expande no Brasil é a IURD. Vamos adotar suas práticas estranhas ao evangelho por isso? Esse foi o erro da igreja tradicional. E que vem persistindo.
Mas o mais engraçado, é que quando os tradicionais se tornaram pentecostais, em alguns aspectos acabaram se tornando ainda mais exagerados em suas celebrações. O culto santo, racional e reverente de adoração a Deus tornou-se, com o perdão da palavra, uma baderna generalizada. Abraçaram práticas descabidas como quebra de maldições hereditárias e intervenções territoriais completamente equivocadas, unção de objetos e outras coisas. E ai de quem disser o contrário. É frio, incrédulo, tradicional e outros rótulos menos dignos. Está quase desviado. Simplesmente porque só quer ouvir a Palavra de Deus.
Chegamos ao século XXI com uma situação que seria constrangedora não fosse tão ridícula. Os pentecostais querendo regular a bagunça que criaram. Basta ler os livros da nova geração de pastores e teólogos oriundos do movimento para ver suas preocupações. Basta dar uma olhada em títulos como "O Evangelho que Paulo Não Pregaria" e "Erros que todos os Pregadores Devem Evitar." Orientam contra profecias, visões, exageros, pregações teatrais, arrebatamentos, anjos, etc. De repente estão ávidos por Palavra, ensino, estudos, seminários, faculdades teológicas. Só esquecem de dizer uma coisa: Perdão.
Também não tocam na questão das línguas estranhas, que eles transformaram em dogmas. Aí também já seria demais. A igreja foi fundada sobre esta pedra. Retirá-la seria fatal.
E hoje o quadro hilário é esse. Os tradicionais querendo cada vez mais ser pentecostais, porque querem suas igrejas cheias a qualquer custo, esquecendo-se das palavras do próprio Cristo em Lucas 12:32 (Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino). E os pentecostais querendo a todo custo trazer um pouco da reverência tradicional para dentro de suas igrejas, sendo que foram eles mesmos os responsáveis por sua retirada. É pra rir ou pra chorar?
Autor: Missionário Neto Curvina
Fonte: www.PalavraPrudente.com.br
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Fanatismo e Êxtase, da Ignorância ao Misticismo
por
Raniere Menezes
Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos. Mateus 24:24
Não é raro encontrar pessoas que se dizem crentes relatarem testemunhos “sobrenaturais”, “sinais e maravilhas”, “mistérios”, etc. Vigílias onde coisas estranhas acontecem, gente que vê folhas de árvores douradas, prateadas, brilhantes, reluzentes ou pegando fogo. Falar em vocábulos estranhos e “sentir” Deus enviando Sua Palavra são coisas mais do que “normais” para vários grupos evangélicos. Cultos onde pessoas choram, riem, batem palmas, caem, convulsionam, e tudo de forma descontrolada.
Igreja evangélica, hoje, é sinônimo de concentrações de pessoas e múltiplas manifestações físicas, gente que marcha como soldado de um lado para o outro, gente que fica rodopiando e gesticulando como animais, ruídos estranhos, experiências de “sair” do corpo e voar por cima das outras pessoas, visões de anjos e pétalas de rosas caindo do céu, visões de entidades monstruosas, viagens ao céu, viagens ao inferno, enfim, fanatismo e êxtase.
É inútil relatar tantas esquisitices. O que importa dizer é que essa religiosidade mística é predominante no Brasil, e de uns anos para cá, sorrateiramente isso tem influenciado o comportamento de muitos protestantes históricos, que agora, querem ser chamados de “RENOVADOS”. Até a IPB – Igreja Presbiteriana do Brasil – que possuía o símbolo da sarça (a antiga sarça emblema da Igreja da Escócia) inseriu há um tempo uma “pomba” no centro da sarça por causa dessa influência pentecostalizada. Este fato é apenas um pequeno exemplo do poder de interferência dos chamados carismáticos sobre as igrejas históricas. Não são poucas as igrejas históricas que vem sofrendo ascendência mística.
Em geral, a religiosidade evangélica de hoje está abraçada a uma espécie de neopaganismo. O conceito do panteísmo ganhou nova roupagem. Deus agora “é fácil”. A Bíblia não é mais a única regra de fé e prática como diziam os antigos cristãos. Quanto maior a ignorância bíblica, mais forte o misticismo.
Hoje se fala muito em “culto festivo” – Princípio Regulador de Culto, nem falar! -, parece um bem intencionado discurso, mas de onde vem toda essa “festividade”? Alguns querem justificar seus cultos “renovados e festeiros” reportando-se ao povo judeu em suas peregrinações, mas uma exegese superficial logo demonstra que o judaísmo nunca teve liturgia de culto festiva, nem no templo nem na sinagoga – peregrinação não é culto! - Liturgia festeira é coisa da cultura africana e indígena. E não precisa ser antropólogo para saber disso.
As pessoas querem transcender. A busca da embriaguez mística é o objetivo dos cultos. Falar em linguagem estranha, ter visões e “profetizar”, ser arrebatado em espírito, “voar”, etc. Essas coisas têm muito mais semelhança com o misticismo afro-indígena. Não há qualquer tradição judaico-cristã nessa contemplação do incompreensível.
O uso racional da cabeça em conhecer algo está sendo substituído por um mergulho de cabeça nas experiências. Muita gente não está interessada em CONHECER os atributos de Deus e Sua vontade, mas “tocar” no Seu trono, nas Suas vestes, “experimentar” a liturgia dos anjos. É preferível experimentar uma força subjetiva, uma energia, e não ficar aprisionado no mundo racional que ouve algo inteligível. A fórmula “mágica” é esvaziar o púlpito de todo conteúdo doutrinário objetivo e encher as pessoas de revelações subjetivas e emocionais. Temos adoradores com paralisia intelectual!
No lugar de se invocar a Santíssima Trindade e humilhar-se em Sua presença, os invocadores apelam à presença de um Deus por demais imanente, como se fosse um de nós, e invocam e evocam muito mais os anjos e os demônios. Acham que podem achegar-se a Deus como bem entendem.
O movimento carismático ou pentecostal é uma forma moderna de misticismo, porque é fundamentado não na doutrina dos apóstolos, mas num conceito de fé irracional e irreal. O movimento é atraente porque muitas pessoas não querem CONHECER as Escrituras, mas querem “algo mais” (e de preferência: rápido e fácil). John MacArthur Jr., teólogo contemporâneo, crítico ferrenho do misticismo, observou de forma cuidadosa que existe uma intolerância teológica quanto ao ensino bíblico por parte dos evangélicos pentecostalizados. Escreveu ele: “As experiências místicas não se alinham com a verdade bíblica, elas afastam as pessoas da verdade de Cristo. As pessoas começam a buscar experiências paranormais, fenômenos sobrenaturais e revelações especiais – como se nossos recursos em Cristo não fossem o bastante” (...) “Os sentimentos se tornam mais importantes do que a própria Bíblia”.
O crescimento numérico dos evangélicos no Brasil é algo significativo. E existe uma estatística bem interessante e curiosa sobre um determinado segmento: o que cresceu não foi tanto o número de protestantes históricos, mas o número de pentecostais que pulou de 8,1 milhões em 1991, para 17,6 milhões em 2000. Atualmente os pentecostais representam quase 68% dos evangélicos. Ora, é exatamente esse movimento que tem influenciado quase todas as alas do protestantismo. A influência vem daí, e eles [os pentecostais] são influenciados por líderes despreparados, emergentes e místicos. Um novo xamã ressuscitou no Brasil. Se conseguimos vestir calções de futebol nos índios e também ensinamos a usar a Internet, eles agora estão de “terno e gravata” influenciando a teologia.
Em várias localidades a diferença entre uma igreja evangélica renovada (que se diz mais séria) e uma igreja pentecostalizada está somente nos decibéis. Seus vizinhos que o digam. O que é que se pode esperar de um encontro emotivo onde o culto é uma válvula de escape? Gente fraca é presa fácil das falsas promessas do misticismo.
No início do século passado os protestantes brasileiros acusavam os católicos romanos de sincretismo religioso com os elementos da religiosidade africana. Eles também foram criticados por sua religiosidade popular sincretista com os espíritas, e também com traços cúlticos da religiosidade indígena. Mas hoje os canhões mudaram de alvo, podemos dizer que, literalmente, o tiro saiu pela culatra. Hoje temos o império pós-modernista-da-igreja-evangélica-tupiniquim-do-reino-dividido-afro-kardecista.
O Brasil é um país místico, obcecado pelo “espiritual”. A baixa cultura acadêmica retira o alicerce escriturístico sem pedir licença, e por falta de filtro, muitos estão sendo explorados por lobos vorazes. E o Cristianismo genuíno sofre porque é uma religião da Bíblia; é uma experiência que passa pela compreensão do que é COMPREENSÍVEL.
O misticismo nos arraiais evangélicos é usado também para a intimidação “espiritual” para rebaixar os neófitos. Não é incomum que certos líderes experientes, pessoas que dizem ter sonhos, visões ou experiências transcendentais menosprezarem os inexperientes, e desenvolverem uma competição carnal e orgulhosa. Isso não tem nada de espiritual! E todos sabemos disso.
Estamos mais do que nunca mundanizados e paganizados. Que os pentescostais, que se dizem “tradicionais”, não venham com desculpas, dizendo que não são como outros grupos pentecostais e neo-pentecostais, quando na verdade estão substituindo o “sabonete ungido” por “óleo ungido”. Os católicos romanos sempre tiveram suas novenas, hoje os evangélicos tupiniquins têm “correntes de oração”. Isso não é misticismo?
Não precisamos estudar antropologia para saber que “culto de libertação” é religiosidade pagã. Antigamente, no tempo em que éramos protestantes, ouvia-se os salmos metrificados, hoje se ouve louvorzão “mantrificado” (neologismo derivado de “mantra” – palavra, som monossilábico ou verso usado de forma repetitiva e musicada proporcionando um estado contemplativo-místico). Os chamados “levitas” modernos encantam seus ouvintes por horas, até deixá-los “soltos” e leves.
As grandes doutrinas da graça, chão firme e sólido para a caminhada cristã, são substituídas por diálogos retóricos agressivos sobre os males da existência. Hoje ouvimos muito mais discursos sobre sofrimentos, dores, doenças, filhos, solidão, separação, desemprego, marginalidade, vícios, prostituição, brigas, traições, “encostos”, libertação, poder, prosperidade, miséria material, do que: Autoridade das Escrituras, o Ser de Deus, os Decretos Soberanos de Deus, obediência ao Criador, o louvor de Sua Providência, sobre a Corrupção da natureza humana, a exigência da Justiça de Deus, do Pacto Eterno de Deus com Seu povo eleito, da cruz de Cristo, dos ofícios do Senhor Jesus Cristo, da Justificação pela fé, da Regeneração, da Adoção, da Santificação, da Fé Salvadora, da vida cristã de arrependimento, da certeza da graça e da salvação, da Lei de Deus, do Dia do Senhor e do Princípio Regulador de Culto, da Ressurreição, do Juízo e da ira de Deus, enfim, das Doutrinas (com “d” maiúsculo) cristãs históricas.
Muitos pregadores ruidosos gostam de vociferar o lema: “abaixo os dogmas! Abaixo os dogmas!” (mas, o que é mesmo dogma?, alguém pergunta. “Sei, lá!” é a resposta). Acredito que temos um problema diante de nós que poucos ou ninguém quer mexer. As doutrinas cristãs que realmente alimentam o rebanho de Cristo não vêm em forma de revelação extra-bíblica, elas precisam ser sistematizadas, racionalizadas e discursadas. E a maioria dos evangélicos (e por que não dizer dos brasileiros) é analfabeta funcional, ou seja, sabe soletrar e ler, mas não entende o conteúdo. Portanto é muito mais fácil “conectar-se” com Deus de forma intuitiva, sem ter de ouvir ou estudar doutrina. Muitos cristãos estão marchando em êxtase numa busca do extraordinário, e sob seus pés não se encontra Satanás, mas as Escrituras estão sendo pisoteadas!
O Pr. Isaías Lobão P. Jr., fez algumas observações interessante ao resenhar o livro de John Stott, Crer é também pensar (publicado aqui no site), eis um trecho: “No primeiro capítulo, Cristianismo de Mente Vazia, Stott desafia a tendência anti-intelectual de muitos crentes. Baseados na filosofia secular do pragmatismo, muitos crentes abandonam a doutrina em busca da prática. Stott critica esses crentes afirmando que toda boa doutrina é sempre acompanhada de um ensino prático. Ele cita três grupos que fazem isto: os católicos (e acrescento, muitos evangélicos) que ritualizam sua relação com Deus, mecanizando sua relação com Deus. O segundo grupo, os cristãos radicais que concentram suas energias na ação social e na preocupação ecumênica. Se bem que este grupo seja (ainda) pequeno no evangelicalismo brasileiro, é uma postura bastante comum entre os crentes britânicos. Sua luta social esconde uma ignorância e desprezo pela doutrina. O terceiro grupo alistado por Stott, são os crentes pentecostais. (esses nós temos de sobra!). A busca incessante dos pentecostais por experiências com Deus, os leva, geralmente, a colocar o subjetivismo e o emocionalismo acima da doutrina bíblica”. Que podemos dizer? A tendência anti-intelectualista necessariamente exclui uma reforma genuína. Uma nova reforma não virá através dos manipuladores de emoções.
Mais um dado surpreendente (que não surpreende mais), uma matéria do Jornal Nacional que foi ao ar dia 26/11/04, mostrou um índice alarmante de reprovação da OAB – Ordem dos Advogados do Brasil. – Os estudantes de Direito brasileiros bateram todos os recordes de incapacidade: reprovação de 91,5% (Isso mesmo: quase 100%!!!). Ou seja, 18 mil bacharéis em Direito não estão em condições mínimas para ingressar no mercado de trabalho! Isto reflete o nível de educação no Brasil de forma conclusiva.
“Surpreende e aborrece”, disse o presidente da OAB de São Paulo, Sr. D’urso. Vale a pena transliterar um trecho da reportagem: “Justiça seja feita: segundo especialistas na preparação de candidatos, o problema não está apenas no ensino superior. Faculdade fraca atrapalha, mas para muitos aspirantes a advogado O MAIOR OBSTÁCULO É MESMO A LÍNGUA PORTUGUESA, diz a diretora de curso especializado, Rosângela Santos de Jesus Romano Matos: ‘Os alunos são tecnicamente muito bem preparados, mas quando chega a hora da prova ele não consegue passar pro papel todo o conteúdo técnico.’” Ora, se os nossos estudantes das ciências jurídicas e sociais estão desse jeito, que diremos dos estudantes de teologia de muitos seminários que mais se assemelham a um curso profissionalizante de baixa classificação? Como iremos ter uma nova reforma religiosa sem uma reforma educacional? Não se pode viver o cristianismo sem apologética, e isto requer discurso e recurso.
O CACP – Centro Apologético Cristão de Pesquisa – descreveu a etimologia da palavra “apologia” nesses termos: “Apologia dentro do contexto evangélico-eclesiástico, é a habilidade de responder com provas adequadas e sólidas a fé cristã perante as demais religiões. Já que o cristianismo é uma religião de fatos, ou como bem expressou certo apologista: ‘é uma religião que apela aos fatos da história’, ela se serve de tais meios para fundamentar seus argumentos.
“A apologia é parte inseparável da teologia, sendo que aquela, serve-se desta, para desenvolver um plano lógico e sistemático nas questões argumentativas concernentes á fé cristã.
“O cristianismo é uma religião que por sua natureza exclui quaisquer outros credos como verdadeiros, a não ser ele mesmo. Por isso, ele entra em choque com as demais religiões existentes, que são sem exceções, produtos das idéias dos homens, que na ânsia de sua procura pelo sagrado, por Deus, aliena-se nas suas próprias imaginações, resultado da depravação total da qual está sujeita a humanidade sem Deus. (...)
“Neste choque de crenças a apologia se torna indispensável. Ela nasce forçosamente como uma resposta ao ataque à sã doutrina que muitas vezes se apresenta sob diversas faces.
“Quase todas as epístolas foram escritas visando à defesa da fé cristã (no sentido de corrigir erros doutrinários) contra os ataques de fora, e muitas vezes de dentro da própria igreja.” (Paulo Cristiano). Como defender a fé sem SOLA SCRIPTURA? Como fundamentaremos argumentações sem as mínimas condições que a língua pátria exige?
A Reforma Protestante desencadeada na Alemanha não só precisou de Lutero, mas de Melanchton. Este teólogo era muito mais do que um reformador, era um educador. Sua obra como “ministro” da educação passou a ser sinônimo do seu nome. – “Pelo menos 56 cidades alemãs procuraram a sua ajuda na reforma de suas escolas. Ele ajudou a reformar oito universidades e a fundar outras quatro. Escreveu numerosos livros didáticos para uso nas escolas e mais tarde foi chamado o Instrutor da Alemanha” (fonte: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã). – Precisamos de uma reforma não só teológica, mas educacional. Pois o misticismo é contrário ao conhecimento das Escrituras. E este é o problema que poucos ou ninguém quer mexer.
A Reforma foi um movimento altamente literário e o protestantismo genuíno é uma experiência literária. O movimento evangelical contemporâneo está na contramão da história da Igreja cristã. A ênfase hoje está em buscar respostas fora do que já foi dito nas Escrituras, em sinais e prodígios. Muitos só crêem quando vêem grandes milagres! Contrariando estas palavras:
Então, Jesus lhe disse: Se, porventura, não virdes sinais e prodígios, de modo nenhum crereis. Rogou-lhe o oficial: Senhor, desce, antes que meu filho morra. Vai, disse-lhe Jesus; teu filho vive. O homem creu na palavra de Jesus e partiu. (João 4.48-50).
Não sei até onde os pesquisadores fizeram suas elucubrações, mas acredito que boa parte da nossa miscelânea evangélica tupiniquim se dá por esses motivos:
1. Influência de elementos paganizados do catolicismo romano;
2. Influência de elementos litúrgicos afro-indígenas;
3. Influência da renovação carismática, subseqüentemente dos pentecostais – A origem do movimento é anti-intelectual;
4. Analfabetismo total e funcional da nação;
5. Maioria feminina. – As mulheres são mais suscetíveis ao misticismo. Embora não liderem (em grande parte, ainda) são as maiores sustentadoras dos trabalhos.
6. A busca de uma identidade e posicionamento social. – Pessoas pobres e simples saem do anonimato e conquistam um status de poder e influência “espiritualistas”.
7. A busca por soluções imediatas.
Admito que são muitos os fatores que contribuem para uma mentalidade mística, mas de uma forma ou de outra, essas são as bases do misticismo evangélico brasileiro. Pessoas que sentem um intenso desejo de relacionar-se imediatamente com o divino. Experiências intuitivas e extáticas nunca foram novidades na religiosidade popular. Mas no fundo, no fundo, o que há no misticismo é um escape para fugir da obediência da Palavra de Deus. Contudo, o conhecimento de Deus não permite atalhos! Não haverá reforma genuína enquanto o pentecostalismo (seja chamado de “carismáticos” ou “renovados”) não for corajosamente combatido!
O SOLA SCRIPTURA foi um dos pilares da Reforma do Século XVI, experiências místicas não podem determinar a fé verdadeira. DEUS NOS DEU AS ESCRITURAS, NÃO HÁ OUTRA AUTORIDADE. A BÍBLIA É INFALÍVEL, INSPIRADA E SUFICIENTE. A base comum (e inerrante) de conhecimento nunca poderá ser uma revelação extra-bíblica. Muitos evangélicos, embora admitam a infabilidade das Escrituras, com suas práticas dizem que a Bíblia não é suficiente! A base da sua fé é a experiência, e a Suficiência das Escrituras é desprezada. A palavra de Cristo não é suficiente para esses “fanáticos, iludidos, desmiolados, imbecis, tratantes e cães danados” – (adjetivos que Calvino costumava chamar os místicos).
A livre interpretação da Bíblia é uma marca protestante, de maneira nenhuma podemos nem queremos proibir ninguém de interpretar as Escrituras por si mesmo. Há necessidade de uma boa hermenêutica e exegese? Há. Mas não podemos fazer como a igreja romana que proibiu a livre interpretação da Bíblia alegando que os leigos interpretariam mal. E a Confissão de Fé de Westminster, uma confissão genuinamente protestante, não perde isso de vista:
A seção VII do capítulo I – Da Escritura Sagrada – assevera: Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em um ou outro passo da Escritura são tão claramente expostas e explicadas, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido USO DOS MEIOS ORDINÁRIOS, podem alcançar uma suficiente compreensão delas. Ref. II Pedro 3:16; Sal. 119:105, 130; Atos 17:11. Observe bem: “...os indoutos”... “...podem alcançar uma suficiente compreensão delas”. Porém, o ponto essencial em questão é que NÃO ESTÁ HAVENDO USO DEVIDO DOS MEIOS ORDINÁRIOS, que supõem princípios de interpretação lógica e racional. Este é o problema! Protestantismo é uma religião do Livro.
Nós somos criaturas racionais, criados para agir inteligentemente. Temos intelecto; vontade, emoções e mente. John Owen, um homem erudito e piedoso, bem disse que o homem foi criado para conhecer o bem por intermédio de sua mente, sem descartar a emoção (esta, em seu devido lugar, deseja e apega-se ao bem conhecido). A emoção nos impulsiona, mas não antes da verdade adquirida através da Palavra de Deus. Disse Owen: “As emoções talvez sejam o leme do navio, mas a mente é que deve pilotar; e a carta marítima a ser seguida é a verdade revelada por Deus” [na Sua Palavra escrita]. E como bem resumiu, ainda disse: “O intelecto é o olho da alma”. Daí podermos dizer que o misticismo é cego! É um movimento anti-revelacional!
A BÍBLIA É TUDO O QUE PRECISAMOS, NADA MAIS É NECESSÁRIO! Não precisamos de novas revelações, sonhos, visões, anjos, êxtase, vozes ou reações físicas. O SOLA SCRIPTURA é suficiente! “O Cristianismo fundamenta-se na Revelação. Nosso conhecimento de Deus abrange aquilo que Lhe aprouve nos revelar a respeito de Sua Pessoa. Todos os esforços humanos destinados a conhecê-Lo levam à falsas religiões ou misticismo. Ou somos submissos à Sua Revelação ou à nossa imaginação” (Bruce Bickel). Podemos afirmar que a fonte de conhecimento da linha carismática-pentecostal não é Deus! Ou então temos de concordar que Deus nos dá um conhecimento direto pela excitação dos sentimentos, independentemente do ensino de Sua Palavra.
Respondeu Abraão: Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos. (Lc 16.29)
“O conhecimento é indispensável à vida e ao serviço cristãos. Se não usamos a mente que Deus nos deu, condenamo-nos à superficialidade espiritual, impedindo-nos de alcançar muitas riquezas da graça de Deus. Ao mesmo tempo, o conhecimento nos é dado para ser usado, para nos levar a cultuar melhor a Deus, nos conduzir a uma fé maior, a uma santidade mais profunda, a um melhor serviço. Não é de menos conhecimento que precisamos, mas sim de mais conhecimento, desde que o apliquemos em nossa vida”. (John Stott).
Escreveu Heber C. de Campos: “Tudo o que a igreja deve crer sobre Deus e seu relacionamento com os homens, está registrado nas Santas Escrituras que foram escritas, na sua grande maioria, pelos profetas do Antigo Testamento e pelos apóstolos do Novo Testamento”.
Finalmente é sempre bom ouvirmos repetidas vezes a exortação pastoral de MacArthur Jr., “Se algum dia alguém o perturbar dizendo que você precisa dessa ou daquela experiência mística ou espiritual, NÃO ACREDITE. O Espírito de Deus, agindo por meio de Sua Palavra é suficiente para torná-lo totalmente maduro em Cristo”.
À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva. (Is 8.20)
Que Deus tenha misericórdia da ignorância de tantos que se dizem cristãos, e que abra os olhos daqueles que, em Sua Igreja, estão se afastando de Suas verdades, levando-os de volta à pureza e simplicidade devidas a Cristo. Que eles venham a entender que NÃO HÁ OUTRO FUNDAMENTO senão dos apóstolos e profetas.
Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. (Ef 2.20-22).
Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho... (Hb 1.1,2 a).
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sábado, 19 de fevereiro de 2011
Porque Não Podemos Ser Evangélicos

Por Andrew Sandlin
A Reforma Protestante redescobriu o evangelho da livre graça de Deus, que tinha sido obscurecido na igreja medieval por um moralismo que ignorava a profunda depravação do homem, por um sacerdotalismo que se colocava entre os homens e Deus, e por um eclesiasticismo que apagava a distinção Criador-criatura, tornado-se a própria igreja a nova Encarnação. No cerne da Reforma estava uma ênfase renovada sobre o evangelho bíblico-paulinoagostiniano: salvação somente pela graça de Deus, sobre a base da obra expiatória de Cristo, recebida pela fé somente. Os Reformadores e suas igrejas tinham orgulho de serem conhecidos como “evangélicos”, visto que viam a si mesmos como pregando o puro evangelho, a mensagem do evangelho. Esse é o evangelicalismo bíblico.
Mas o que se passa hoje por evangelicalismo está, em muitos pontos, bem longe do evangelicalismo da Reforma, assim como está em geral longe do ensino bíblico em outros pontos. Quando amigos perguntam se sou evangélico, rapidamente digo “Não”. Porque freqüentemente eles identificam “evangélico” com “crer na Bíblia” e “pregar o evangelho”, tento explicar que é precisamente devido ao fato do evangelicalismo não crer corretamente na Bíblia ou pregar o evangelho fielmente, que não me considero um evangélico e não posso ser um membro de uma igreja evangélica (isso é grandemente verdade do fundamentalismo moderno, que é simplesmente uma versão mais restritiva e provincial do evangelicalismo). O que talvez seja os seus três principais distintivos permanece em total contraste com a crença e prática bíblica e reformada do Cristianismo.
Um Evangelho Subjetivo, e não Objetivo
Embora os evangélicos modernos professem uma crença firme na Bíblia, no centro de sua religião não está a sua visão da Bíblia, mas sua visão do evangelho. O evangelicalismo orgulha-se sobre a centralidade do evangelho e da salvação. É justamente aqui, contudo, que o evangelicalismo está mais poluído. Na verdade, ironicamente o suficiente, a visão evangélica do evangelho está mais perto daquela da Roma medieval do que do evangelho bíblico da Reforma. O Concílio de Trento, a resposta católica romana à Reforma, sustentou que a salvação é um empreendimento cooperativo entre Deus e o homem. Deus coloca o processo em movimento (no batismo), mas o homem ajuda ao longo do processo. De acordo com Roma, o livre-arbítrio do homem desempenha uma grande parte em sua salvação. Os Reformadores reconheceram corretamente que isso destruiu o evangelho da graça de Deus. Abriu o caminho para o homem afirmar sua própria contribuição, bondade e justiça. Para os evangélicos, isso é quase uniformemente sua própria “decisão”. Nesse ponto, eles são um com Roma.
Os evangélicos são defensores da “regeneração por decisão”. O evangelicalismo é essencialmente uma deturpação do novo nascimento, a institucionalização da experiência de conversão. A coisa importante sobre a salvação é a experiência do homem, seus sentimentos sobre ser salvo. Uma dose pesada desse experiencialismo foi introduzida na igreja no Wesleyianismo do século dezoito, e tem sido uma marca do evangelicalismo desde então. A experiência de Wesley foi a de ficar “estranhamente aquecido” quando ouviu o evangelho, e essa experiência tornou-se uma peça central de sua teologia. (Para ser justo, a soteriologia de Lutero também era de certa forma autobiográfica, mas ela guiou-o em direção de uma salvação somente pela obra de Deus.
Para Calvino, em contraste, nossa salvação reside na obra objetiva da expiação de Cristo. Os homens não são salvos pelo que experimentam; eles são salvos pelo que Cristo realizou. Em Sua grande obra redentora sobre a cruz e em Sua ressurreição, Cristo assegurou a salvação do Seu povo, cumprindo as exigências da lei ao substituir judicialmente os pecados dos pecadores. Quando o evangelho é pregado, ele atrai eficaz e irresistivelmente aqueles a quem Deus escolheu. Eles são conquistados por Cristo, o seu Redentor. Eles são trazidos sob seus joelhos em humilde submissão, e não podem fazer nada senão exercer fé na obra redentora de Jesus Cristo. Essa experiência, embora essencial, é um resultado da expiação objetiva de Cristo e da aplicação do evangelho pelo Espírito Santo.
Para os evangélicos isso é muito sofisticado e também “intelectual”. O fato realmente central é que Deus perdoou os seus pecados, aceitou-os em Sua família, tornou-os felizes, e preparou-os um lar no céu. Para evangélicos, o evangelho centra-se na vontade e prazer do homem; para os Reformados, o evangelho centra-se na vontade e prazer de Deus.
Porque ser um evangélico significa abraçar a sua forma de evangelho centrado no homem, não podemos ser evangélicos.
Uma Religião do Novo Testamento, e Não Bíblica
A ala Reformada da Reforma expressava a unidade do pacto de Deus no Antigo e Novo Testamento. Os evangélicos enfatizam a falta de unidade entre esses pactos, pois para os evangélicos o objetivo da Fé é reproduzir “o Cristianismo do Novo Testamento”. Os evangélicos crêem em ¼ da Bíblia; os cristãos Reformados crêem numa Bíblia inteira. Evangélicos rotineiramente desprezam a autoridade do Antigo Testamento. A lei do Antigo Testamento, eles afirmam, é parte do “velho” pacto, e foi destinado somente para o antigo Israel; hoje ouvimos apenas as palavras de Jesus, João, Paulo e assim por diante. Os evangélicos estão entre os mais ruidosos em insistir sobre “crer na Bíblia de capa a capa”, mas não crêem que ¾ do que aparece entre as capas tenha qualquer relevância para hoje. Eles falam hipocritamente sobre “estrita inerrância bíblica”, mas isso em geral é simplesmente “conversa piedosa”, pois eles negam que as provisões do novo pacto estavam em operação no Antigo Testamento (Gl. 4:22-31). Eles não vêem muito do evangelho, se é que algo, no Antigo Testamento. E porque o evangelicalismo centra-se no evangelho, isso significa que o Antigo Testamento é largamente irrelevante. Funcionalmente, portanto, o termo “crente na Bíblia” não se aplica a maioria dos evangélicos.
Um Evangelho Limitado, não a Fé Plena
Isso leva diretamente à característica final do evangelicalismo, a qual os cristãos que crêem na Bíblia devem repudiar expressamente. Para os evangélicos, é o evangel, o evangelho (limitada e erroneamente definido, é claro) que deveria impressionar nossas vidas. Para os Reformados, é a soberania de Deus e Seu governo régio absoluto na Terra que é impressionante. O evangelho evangélico não é meramente deturpado; é limitado. O evangelho evangélico é um fim em si mesmo. “Manter nossas almas longe do inferno” é todo o significado da vida sobre a Terra. Para os Reformados, o significado da vida sobre a Terra é a submissão absoluta a Cristo, o nosso Redentor real, e o trabalho diligente para estender o Seu reinado na Terra. Evangelismo é um meio essencial para esse fim, mas não o próprio fim. Afirmar que o evangelismo é um fim em si mesmo é expor uma teologia deturpada e centrada no homem. O fim é a glória de Deus e, com referência ao Seu plano para a Terra, a expansão gradual, porém inexorável do Seu reino (Mt. 6:33; 13:31-34).
Os evangélicos estão intensamente interessados no tipo de evangelismo deles. Porque esse evangelismo não é apenas deturpado, mas também limitado, ele não se relaciona com muitos aspectos da vida. Porque o evangelismo é o centro de sua religião e por não se relacionar com muitos aspectos da vida, a própria religião não se relaciona com muitos aspectos da vida. Porque sua religião não se relaciona com muitos aspectos da vida, eles tendem a pensar como os humanistas mundanos naquelas áreas sem relação com sua religião limitada. Esse é o porquê, em primeiro lugar, o método apologético evangélico compromete o evangelho, como Cornelius Van Til tão poderosamente demonstrou.
Os evangélicos estão dispostos a comprometer tudo, até Deus mesmo, por causa de seu ídolo precioso, o seu evangelho deturpado e limitado. Esse é o motivo da maioria deles não ver nada de errado em enviar seus filhos para escolas do governo, adotar uma psicologia secular, ensinar uma ciência evolucionária, eleger políticos ateus e endossar traduções errôneas da Bíblia. Essas áreas estão além do alcance de seu evangelho limitado. Tudo além do escopo de seu evangelho limitado é algo legal para uma perspectiva “neutra” (isto é, violadora do pacto).
Por essas razões, onde quer que o evangelicalismo moderno tenha florescido, ele tem bombardeado a ortodoxia bíblica histórica; eviscerado uma fé forte e teologicamente ancorada; e castrado uma religião robusta, vigorosa e abrangente. Seu sucesso tem sido o fracasso do Cristianismo bíblico.
Conseqüentemente, ser um evangélico no sentido moderno é diluir e eventualmente destruir a Fé.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto
Fonte: Faith for All of Life, Julho 2000
Via:Eleitos de Deus
Via: [ Ministério Batista Beréia ]
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Lutero – O Significado do Livre-arbítrio – R. C. Sproul

Depois de responder aos argumentos de Erasmo tendo como base os apelos aos escritores antigos na afirmação de que a Bíblia não é clara nesses assuntos, Lutero voltou-se para o corpo principal da obra de Erasmo. Lutero lida primeiramente com a definição de livre-arbítrio de Erasmo: "um poder da vontade humana pelo qual um homem pode se dedicar às coisas que o conduzem à salvação eterna, ou afastar-se das mesmas".
Lutero então apresenta o seu próprio entendimento do que Erasmo queria dizer com livre-arbítrio:
Suponho, então, que este "poder da vontade humana" significa um poder ou faculdade ou disposição ou atitude para desejar ou para não desejar, para escolher ou rejeitar, para aprovar ou desaprovar e para realizar todas as outras ações da vontade. Agora, o que significa para esse mesmo poder "se dedicar" ou "afastar-se" eu não entendo, a não ser que isso refira-se ao real desejar ou não desejar, escolher ou rejeitar, aprovar ou desaprovar - isto é, a exata ação da própria vontade. Assim, devemos supor que esse poder é algo que acontece entre a vontade e sua ação, algo pelo qual a própria vontade produz o ato de desejar ou não desejar e por meio do qual a ação de desejar ou não desejar é produzida. Nada mais é imaginável ou concebível.
Lutero vê na concepção de Erasmo uma reversão ao ponto de vista de Pelágio, embora com menor sofisticação. Ele condena o entendimento de Erasmo sobre as discussões filosóficas anteriores sobre essa questão. Ele, então, discute as três visões distintas de Erasmo do livre-arbítrio: "De uma visão sobre o 'livre-arbítrio' você desenvolve três! A primeira, aquela dos que negam que o homem pode desejar o bem sem a graça especial, não começa, não progride e não termina, etc. parece a você 'severa mas suficientemente provável'... A segunda, aquela dos que afirmam que o 'livre-arbítrio' não é útil para nada exceto o pecado, e que só a graça trabalha o bem em nós, etc, parece a você 'mais severa'; e a terceira, a visão daqueles que dizem que o 'livre-arbítrio' é um termo vazio e que Deus trabalha em nós tanto o bem quanto o mal, e que tudo o que acontece, acontece por mera necessidade, parece a você 'a mais severa'. É contra essas duas últimas que você declara estar escrevendo".
Lutero afirma que as três diferentes visões enumeradas por Erasmo fazem distinções que não há diferenças. Todas as três referem-se à mesma coisa mas com palavras diferentes. Lutero pergunta como Erasmo pode chamar a primeira de "suficientemente provável" quando é claramente divergente da sua própria definição?"Você disse", escreve Lutero, "que o 'livre-arbítrio' é um poder da vontade humana pelo qual um homem pode se dedicar ao bem; mas aqui você diz, e aprova que isso seja dito, que o homem sem a graça não pode desejar o bem".
Lutero diz: "A definição afirma o que a declaração paralela nega! Assim, no seu 'livre-arbítrio' há, ao mesmo tempo, um sim e um não, e no mesmo fôlego você diz que somos tanto certos quanto errados e que você mesmo é tanto certo quanto errado, sobre uma e a mesma doutrina e artigo! Você pensa que se dedicar ao que produz salvação eterna (como sua definição diz que o 'livre-arbítrio' faz) não é bom? Se houvesse bem suficiente no livre-arbítrio para que ele se dedicasse ao bem, não haveria necessidade da graça! Assim o 'livre-arbítrio' que você define é uma coisa, e o livre-arbítrio que você defende é outra".
A essa altura, Lutero indica que a definição de Erasmo do livre-arbítrio não requer a graça para se virar para o bem ou para Deus. Se a graça não é requerida, mas meramente assiste o homem, então a definição de Erasmo do livre-arbítrio não é essencialmente diferente da de Pelágio. Mas Lutero observou que o livre-arbítrio que Erasmo definiu não era o livre-arbítrio que ele estava defendendo. Erasmo não se dispôs a defender uma visão pelagiana pura do livre-arbítrio. Em outro lugar do The Diatribe, ele declarou que "a vontade humana, depois do pecado, é tão depravada que perdeu a sua liberdade e é forçada a servir o pecado, e não pode retornar para um estado melhor".
Se essa é a visão que Erasmo está defendendo, Lutero argumenta, então Erasmo está realmente admitindo algo da própria visão de Lutero: "Se, agora, o 'livre-arbítrio' sem a graça perdeu a sua liberdade, é forçado a servir o pecado e não pode desejar o bem, eu gostaria de saber qual é o legado de todo aquele esforço e diligência da primeira visão, a 'provável'. Não pode ser um bom esforço e diligência, porque o 'livre-arbítrio' não pode desejar o bem, como a concepção declara e você concorda".
Esse é o clássico argumento reductio ad absurdum. Lutero argumenta "para o homem", assumindo as próprias premissas do seu opositor e as conduzindo para a conclusão lógica. Ele chama a visão de Erasmo de um tipo estranho de paradoxo pelo qual Erasmo afirma final e exatamente o que ele se propôs a negar ou nega o que se propôs a afirmar. Lutero diz que todo o Diatribe é "nada além de um ato nobre do 'livre-arbítrio' se condenando em sua própria defesa, e se defendendo na sua própria condenação".
Lutero, então, compara essa visão com as duas outras que Erasmo delineou:
...A segunda é "mais severa", aquela que defende que o "livre-arbítrio" não serve para nada além do pecado. Esta, certamente, é a opinião de Agostinho, a qual ele expressa em muitos lugares." A terceira visão é "a mais severa", a de Wycliffe e Lutero: que o livre-arbítrio é um termo vazio...
...Eu chamo Deus [como minha] testemunha de que pelas palavras das duas últimas visões, eu nada quis dizer e desejei que fosse entendido além do que é declarado na primeira visão. Também não penso que Agostinho pretendia qualquer coisa além disso, nem deduzo qualquer outro significado das suas palavras além do que a primeira visão afirma. Assim... as três visões pormenorizadas no Diatribe são, na minha mente, nada além da visão que defendo. Por essa vez é admitido e estabelecido que o "livre-arbítrio" perdeu a sua liberdade e está obrigado a servir ao pecado e não pode desejar o bem. Nada posso entender dessas palavras a não ser que o livre-arbítrio é um termo vazio cuja realidade está perdida. Uma liberdade perdida, no meu modo de falar, não é liberdade de forma alguma, e dar o nome de liberdade a algo que não tem liberdade é aplicar a ela um termo cujo significado é vazio...
"Se Desejares..."
Em seguida, Lutero responde à outra objeção que Erasmo havia levantado, baseando-se em textos bíblicos que parecem indicar que o homem pode realizar qualquer coisa que Deus ordena. Essa questão é similar àquela que provocou a reação inicial de Pelágio contra a oração de Agostinho, na qual ele pedia a Deus que concedesse o que ele ordenava. No The Diatribe, Erasmo apela aos livros apócrifos: "Eclesiástico, ao dizer 'se desejares manter', indica que há uma vontade no homem de manter ou não manter; caso contrário, qual é o sentido de dizer a alguém que não tem desejo, 'se desejares'? Não é ridículo dizer a um cego: 'se desejares ver, encontrarás um tesouro'? ou a um surdo: 'se desejares ouvir, eu lhe contarei uma boa história'? Isso seria ridicularizar a sua miséria".
Esse tema levanta a questão sobre a própria integridade de Deus. Se ele ordena que algo seja feito e, na realidade, esse algo não pode ser feito, então essa ordem parece ser cruel e injusta. Isso, como Erasmo diz, iria ridicularizar a miséria humana. Ele infere que o mandamento divino indica uma capacidade para obedecer. Caso contrário, a criatura não poderia ser considerada moralmente responsável pela ação. A própria palavra responsabilidade indica a capacidade de responder.
Lutero responde reprovando a razão humana por tirar conclusões insensatas. O que ele, em outro lugar, chama de "uso evangélico da lei", Lutero aqui descreve como uma estratégia divina para mostrar às suas criaturas moralmente impotentes, a própria impotência das mesmas.
Agora, se Deus, como Pai, trata conosco como seus filhos, visando nos mostrar a impotência que ignoramos; ou como um médico fiel, visando nos contar sobre a nossa doença; ou se para ridicularizar seu inimigos que resistem orgulhosamente ao seu conselho e às leis que estabeleceu (pelas quais alcança esse objetivo e da maneira mais efetiva), ele diria: "faça", "ouça", "guarde", ou "se ouvires", "se desejares","se guardares"; pode-se concluir corretamente disso que, por essa razão, podemos fazer livremente essas coisas ou Deus está nos ridicularizando? Por que, de preferência, não deveria seguir esta conclusão: por essa razão, Deus está nos testando para que, pela sua Lei, ele possa fazer com que a nossa impotência seja conhecida...
Aqui Lutero demonstra a diferença entre uma inferência possível e uma inferência necessária. Quando Deus faz algo cujo propósito não conhecemos, somos deixados para especular a respeito desse propósito. Erasmo deduz que se o homem é impotente para fazer o que Deus ordena, então a razão de Deus para a ordem é ridicularizar a miséria humana. Essa é uma inferência possível, mas desaparece rapidamente quando levamos em consideração o caráter de Deus. Mais importante, Erasmo infere, a partir do comando, que somos capazes de obedecer. Essa também, de acordo com Lutero, é uma inferência possível, não uma inferência necessária. Para chegar a esse ponto, Lutero usa um argumento semelhante ao do apóstolo Paulo quando este diz quea lei é uma mestra que nos conduz a Cristo. Somos ordenados a obedecer toda a lei, a ser perfeitos. Isso não significa (a não ser que adotemos o pelagianismo puro) que somos moralmente capazes de alcançar a perfeição.
De acordo com as leis da inferência imediata, uma pessoa nada pode inferir a partir da declaração "Se desejares..." sobre quem tem o poder de assim desejar. Essa é uma frase condicional, indicada pela presença da palavra se. E como a fórmula, se A, então B. Se a condição for satisfeita (A), então a conclusão se seguirá(B). Essa fórmula indica meramente uma conexão entre A e B.
Um texto freqüentemente mencionado a esse respeito é João 3.16, que promete que todo aquele que crer não perecerá. O texto ensina explicitamente que se alguém faz A (crê), então não terá B (perecerá) e terá C (vida eterna). O texto nada diz sobre quem irá crer ou quem pode crer. Ele pode indicar que alguns podem ou irão crer, mas uma indicação não pode anular uma declaração explícita.
Esse é o ponto de onde a discussão prosseguirá. Lutero esforça-se para mostrar que as Escrituras negam explicitamente a capacidade moral do homem para fazer o que Deus ordena. Ele aplicará o princípio da interpretação de que o implícito deve ser interpretado à luz do explícito, não o contrário.
Erasmo continua recorrendo a textos que impõem obrigações ao pecador, argumentando que tais obrigações necessitam de capacidade moral: "Se não está no poder de cada homem manter o que é ordenado, todas as exortações nas Escrituras e todas as promessas, ameaças, repreensões, censuras, súplicas, bênçãos, maldições e multidão de preceitos são, necessariamente, inúteis".
Lutero vê essa conclusão como injustificável, envolvendo um salto quântico da lógica. Novamente ainferência possível é elevada ao nível da inferência necessária. Sem a capacidade plena para realizar o que é ordenado, os comandos seriam necessariamente inúteis. Lutero responde:
O Diatribe continuamente se esquece da questão em debate e trata de assuntos estranhos ao seu propósito; e não vê que todas essas coisas criam [um caso] mais forte contra si mesmo do que contra nós. A partir de todas essas passagens, ele prova a liberdade e capacidade para cumprir todas as coisas, como declaram as próprias palavras da conclusão que tirou; ao passo que sua intenção era estabelecer que "tal 'livre-arbítrio' não pode desejar o bem sem a graça e um esforço que não pode ser atribuído à própria força"....
...e agora, que o próprio Diatribe desminta suas próprias palavras nas quais é dito que o "livre-arbítrio" não pode desejar o bem sem a graça! Deixe-o dizer agora que o "livre-arbítrio" tem tal poder, que não somente deseja o bem mas mantém os maiores mandamentos, sim, todos os mandamentos, com facilidade!
Aqui, Lutero está levando Erasmo para onde Erasmo não quer ir, direto aos braços de Pelágio. Se o argumento de Erasmo for sadio, então ele prova demais, a saber, a plena capacidade sem a assistência da graça. Lutero conclui: "Assim, nada é menos provado pelo todo dessa discussão repetitiva, discursiva e trabalhada do que o que havia sido provado, isto é, a 'visão provável' que descreve o 'livre-arbítrio' como 'tão impotente que não pode desejar qualquer bem sem a graça, mas é forçado ao serviço do pecado, embora tenha se esforçado; isso, porém, não pode ser atribuído ao seu próprio poder'. Uma verdadeira fantasia! - ele nada pode fazer em sua própria força, porém tem-se esforçado dentro da sua própria força; sua constituição envolve uma contradição muito óbvia".
"... deu-lhes o poder..."
Em seguida, Erasmo cita as palavras de João 1 "deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus" (Jo 1.12), dizendo, "Como o poder é dado [a] eles para se tornarem filhos de Deus se não há liberdade da nossa vontade?"
Lutero responde: "Essa passagem também é um martelo contra o iivre-arbítrio', como é quase todo o Evangelho de João; apesar disso, é tão citada a favor do 'livre-arbítrio'! Olhemos para ela, por favor! João não está falando de qualquer obra de homem, grande ou pequena, mas da renovação real e da transformação do velho homem, filho de Satanás, para um novo homem, filho de Deus. Nisso, o homem é simplesmente passivo (como o termo é usado); ele nada faz, mas o seu todo se torna algo. João está falando dessa transformação: Ele diz que nos tornamos filhos de Deus por meio de um poder divinamente dado a nós - não por qualquer poder do 'livre-arbítrio' inerente a nós!"
Mais tarde, Lutero discute o papel de Deus ao endurecer o coração de Faraó. Lutero explica esse difícil conceito do Antigo Testamento dizendo: "Assim Deus endurece Faraó: Ele apresenta à vontade perversa e má de Faraó a sua própria palavra e obra, as quais a vontade de Faraó odeia por causa da própria falha e corrupção naturais. Deus não altera interiormente aquela vontade pelo seu Espírito, mas prossegue apresentando e causando uma pressão a ser tolerada; e Faraó, tendo em mente a sua própria força, riqueza e poder, confia neles mediante essa mesma falha da sua natureza...Tão logo Deus externamente apresenta a ela algo que naturalmente a irrita e ofende, Faraó não pode escapar de ser endurecido..."
O coração de Faraó é necessariamente endurecido, mas não porque Deus tenha criado um mal recente dentro dele ou porque Deus coagiu Faraó ao pecado. Antes, o endurecimento foi o resultado natural da corrupção interior de Faraó quando deparou com a vontade e o comando persistentes de Deus.
A necessidade do resultado (o endurecimento do coração de Faraó) significa que a compulsão estava envolvida? Se Deus desejava que o coração de Faraó fosse endurecido, então esse endurecimento necessariamente teria de acontecer. Se aconteceu por necessidade, como isso pode ter acontecido sem compulsão? The Diatribe admite tanto a necessidade quanto o livre-arbítrio. "Nem toda necessidade exclui o 'livre-arbítrio'", disse Erasmo.
"Assim, Deus, o Pai, necessariamente gera um Filho; porém ele o gera de bom grado e livremente, porque ele não é forçado a agir assim".
"Estamos agora discutindo compulsão e força?" Lutero responde. "Não registrei em muitos livros que estou falando sobre a necessidade da imutabilidade? Eu sei que o Pai gera de bom grado e que Judas traiu a Cristo de bom grado... Eu faço a distinção de duas necessidades: uma eu chamo de necessidade da força(necessitatem violentam), que se refere à ação; a outra eu chamo de necessidade da infalibilidade(necessitatem infallibilem), referindo-se ao tempo".
Depois de duelos sobre vários textos do Antigo Testamento, o debate se move para o Novo Testamento. Erasmo faz objeção ao apelo de Lutero à declaração de Jesus, "Sem mim, nada podeis fazer" (João 15.5).Lutero responde: "Ele se apodera desta pequena palavra nada, corta sua garganta com muita palavras e exemplos e, por meio de uma 'explicação conveniente', chega a isto: que nada pode significar o mesmo que'algo um pouco imperfeito"'.
Erasmo havia interpretado esse texto num estilo elíptico, de acordo com o qual ele significa que sem Cristo, o pecador nada pode fazer perfeitamente. Isso realmente exercita a ira de Lutero. Ele diz, "A não ser que você prove que 'nada' nessa passagem não apenas pode, mas deve ser entendido como 'algo um pouco', você nada fez com a sua vasta profusão de palavras e exemplos além de colocar fogo na palha seca!"Posteriormente ele adiciona, "É completamente desconhecido - da gramática e da lógica -dizer que nada é o mesmo que algo; para os lógicos, a idéia é uma impossibilidade porque os dois são contraditórios!"
Depois de responder aos textos-prova de Erasmo para essa posição, Lutero conclui seu livro apresentando um caso exegético para sua própria posição.
http://www.josemarbessa.com/2010/11/lutero-o-significado-do-livre-arbitrio.html
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
A UNÇÃO COM ÓLEO DE TIAGO 5:14

Moisés Bezerril
Unção Com Óleo - CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES:
1. O tema da unção com óleo tem sido largamente explorado por várias escolas de interpretação do Novo Testamento, e é um tema debatido entre “scholars”, críticos e teólogos sistemáticos. Então, não é um tema novo. Sobre ele há muito se tem debatido e escrito. Muitos pastores no nosso meio, inclusive reformados, têm usado dessa prática. Contudo há necessidade de um esclarecimento quanto à natureza desta unção com óleo; de como deve ser feita e em que casos deve ser usada. Isso porque estamos vivendo uma época em que esse tema caiu em um extremo semelhante ao da Igreja Romana que usa este texto e prática, ainda hoje, como um sacramento. Há muitas igrejas e pastores sérios que estão caindo no mesmo erro que a Igreja Romana caiu. Especialmente porque hoje contamos com o movimento de sinais e maravilhas que está indo além da Igreja Católica Romana.
2. Muitas interpretações têm sido sugeridas para este texto. Muitas interpretações têm sido meramente produto da influência pagã que sutilmente tem ganhado espaço na igreja cristã, sem qualquer sustentáculo exegético para o texto. Outras interpretações fluem de um transbordamento de idéias pentecostais para dentro do texto bíblico, revelando total ignorância do contexto e da teologia bíblica do assunto.
3. Parece que com o avanço do movimento de sinais e maravilhas, os pregadores se sentem, de alguma maneira, forçados a “acreditarem” nesses movimentos e em suas idéias, simplesmente por se sentirem ameaçados de serem considerados “radicais” se demonstrarem opinião oposta a eles, ou mesmo “incrédulos e carnais” se não crerem na “terceira onda do Espírito”. Muitos estão afirmando que o que se faz no movimento de sinais e maravilhas está correto, caso contrário não seria espiritual. Se formos contra estes movimentos somos logo chamados de não espirituais e radicais. Paradoxalmente, hoje se emprega o termo “radical” para quem não é pentecostal. Nesse caso a Confissão de Fé de Westminster seria radical e a própria história da Igreja Presbiteriana também.
4. Uma grande parte das pessoas que adotam uma interpretação diferente para o óleo da unção de Tiago 5 está ligada ao movimento de sinais e maravilhas. Temos pregadores reformados que usam a unção com óleo, mas na grande maioria são pessoas envolvidas com o movimento de sinais e maravilhas. Isto não quer dizer que vamos apresentar um trabalho com vistas a refutar idéias somente por causa de seus defensores. Nosso objetivo é fazer uma abordagem histórico-exegética do texto, de tal maneira que nos forneça diretrizes certas para o uso ou desuso da unção com óleo de Tiago 5.
A NATUREZA DO PROBLEMA
A natureza do problema, o qual pretendemos analisar e investigar à luz da história e exegese do Novo Testamento é:
a) É a unção com óleo um mandamento para a nossa igreja e nossa cultura dos dias atuais? Esta é a primeira pergunta que se faz porque o texto é um mandamento e todo mandamento se dirige ao povo de Deus. Este texto estaria falando para nós hoje?
b) O que representa o óleo?
c) Qual a sua importância para a cura nos dias modernos?
d) Qual a sua verdadeira natureza e função no processo da cura?
e) Quem deverá ministrar o óleo?
f) A que tipo de doente deve ser ministrado?
g) Como deverá ser ministrado?
A problemática se estabelece, não somente porque a Igreja moderna simplesmente faz uso do óleo, mas, exatamente, porque a unção com óleo também tem sido vista como um ato de poder. Eu não teria problema algum com esta questão, se as pessoas que administram o óleo, entendessem a natureza neo-testamentária do óleo. O problema se estabelece porque se tem desvirtuado o verdadeiro sentido do óleo desde a época pós-apostólica. Os apóstolos não erraram quanto ao uso do óleo, mas a Igreja errou e chegou no século XII ao extremo da prática sacramental da extrema-unção. Desde esta época o uso do óleo tem sido simplesmente uma repetição de erros doutrinários da Igreja ao longo da história. A unção com óleo tem sido visto como um ato de poder em si mesmo, não da oração, e é chamado de “ungido” ou “consagrado”, quando muitos pregadores têm orado sobre ele, para que, ao estilo das religiões pagãs, este elemento venha a desencadear um poder curador sobre a pessoa ungida. Essa é a versão mais popular do óleo. Porque se dá esta visão?
Nosso objetivo, portanto, é desmistificar esse suposto uso do óleo no Novo Testamento, fornecendo razões para uma teologia sadia da oração e da cura. Vejamos alguns argumentos importantes sobre o assunto:
A UNÇÃO COM ÓLEO NA HISTÓRIA DA IGREJA
A unção com óleo era uma prática costumeira em Israel, (Is 1:6; Lc 10:34). A unção praticada era de duas naturezas: 1) Unção para fins culturais; 2) Unção para fins sacramentais. Havia a unção destinada exclusivamente à higiene, o cuidado com o corpo, à beleza, para algumas enfermidades, para embalsamar os mortos. Este é um ponto que vamos desenvolver mais adiante quando falarmos de duas palavras gregas muito bem usadas na Septuaginta: aleifw (tipo de unção cultural, ligada aos costumes) e criw (unção religiosa, sacramental, de onde se origina a cerimônia de crisma da Igreja Católica – criw, se refere a unção que era usada para ungir profetas, sacerdotes e reis porque ela vai tipificar exatamente a comunicação do Espírito de Deus para tais ofícios). Ser Rei em Israel era ser capacitado pelo Espírito de Deus. Por isso tinha de ser ungido, pois a unção representava a posse do Espírito Santo para desempenhar aquela função.
As propriedades medicinais do óleo foram louvadas por Filo (Somn. M. i. 666), Plínio (N.H. xxiii. 34-50) e Galeno (Med. Temp. bk. Ii.). Os judeus, como também outros povos antigos usavam o óleo como remédio em aplicações terapêuticas; mas geralmente, devido à falta de conhecimento científico, a eficácia do óleo estava estritamente relacionada à mente do paciente. Muita coisa que se inventou depois com respeito ao óleo fez com que esta substância se tornasse um elemento místico, mesmo antes do cristianismo. Em Israel se fazia um uso sadio do óleo, mas o paganismo usava-o de forma distorcida. A igreja apóstólica fazia uso correto, mas o paganismo que se introduziu nela distorceu o seu uso e isso vem até os nossos dias. Mesmo entre os povos pagãos já havia o uso místico do óleo.
O testemunho dos escritos rabínicos quanto ao uso do óleo é abundante, provando que a prática da unção terapêutica em Israel é algo praticado em larga escala. Nos escritos dos rabinos há muitas ordens quanto ao uso do óleo e em quais enfermidades ele deveria ser usado.
Neste texto, vemos claramente que a unção com óleo é acompanhada de cura miraculosa em resposta à oração; o mesmo que acontece em Marcos 6:13. Estes são os dois únicos textos – Mc 6:13 e Tg 5:14-15 – em todo o Novo Testamento que associam a unção com óleo à cura divina.
O Evangelho de Marcos não faz mais nenhuma referência à unção com óleo. Mesmo no final do Evangelho, quando Jesus faz todas as promessas para a era apostólica (Mc 16:18), a unção não é citada alí. Em todas as recomendações de Jesus no final do Evangelho de Marcos não encontramos nenhuma para que se derrame óleo sobre os enfermos afim de que eles sejam curados; não é uma instituição de Jesus mas também não foi contra Sua vontade.
No texto de Marcos 6:13, não houve nenhuma instituição formal do ato da unção, o que parece também não contrariar a vontade de Jesus. Mesmo não sendo ordenado por Ele, foi permitido ungir os enfermos. Nosso entendimento deste texto é que a unção com óleo foi um apêndice cultural que transbordou para a pregação do evangelho porque serviu muito bem como credenciais apostólicas. Nós não vamos encontrar nenhum uso sacramental desta unção. Isto porque o verbo grego não é o mesmo para unção sacramental e também porque não há nenhuma ordem em nenhum outro lugar do NT para se usar o óleo. Outra razão é porque o mandamento de João quanto à unção com óleo parece ser muito inclusivista. Por isso tende a ser um mandamento quase específico por causa de uma situação específica na Igreja.
Se Jesus não instituiu a unção com óleo, se os apóstolos não colocaram na lista dos dons (de cura) e se foi usado por Tiago que é de uma época muito remota envolvendo uma abordagem judaica do Evangelho, este argumento do transbordamento deste elemento cultural para a credencial apostólica se encaixa bem. Como aconteceu este transbordamento cultural para uma dimensão espiritual? Como é que o óleo deixa de ser símbolo de cura? Toda vez que aparece a palavra “ungir” relacionada a cura divina, sempre é o termo usado para a unção cultural. Não é unção sacramental. Unção sacramental só é encontrada em I Jo quando ele se refere à unção do Espírito. Também é usada quando se refere a unção de Jesus, a unção de profetas, mas quando se refere a enfermidades não há a unção sacramental e sim unção terapêutica (cultural). Mas como pode ser unção terapêutica se os apóstolos estavam ungindo para curar enfermidades incuráveis? Como pode ser? Aqui podemos ver que o óleo saiu dessa dimensão terapêutica e passou a outra dimensão que era simbolizar uma operação divina.
O ponto é que os apóstolos fizeram uma coisa que todo mundo fazia (dentro do contexto primitivo e judaico da evangelização apostólica) naquela época, com uma única diferença: As pessoas que ungiam não conseguiam curar enfermidades graves com óleo, pois ao que nos parece, o óleo somente resolvia problemas muito simples, como lesões superficiais leves. Na parábola do Bom Samaritano o texto descreve um homem caído, semimorto, por ter sido surrado violentamente. Mas o samaritano que passava unge-o com óleo e vinho. Os apóstolos fizeram uma coisa que era comum na época. Dentro do contexto primitivo judaico da evangelização não se vê isso (Igreja primitiva). E dentro do contexto gentílico não vamos mais encontrar unção com óleo. Com Tiago vemos que o contexto é puramente judaico. Sabemos como Lutero (erradamente) repudiou a Epístola de Tiago porque era muito judaica. A sua linguagem é muito judaica por causa da época em que foi escrita e os temas são abordados numa perspectiva judaica, mas é verdadeiramente cristã. O que diferenciou os apóstolos é que eles faziam coisas que as pessoas não conseguiam fazer. As pessoas que ungiam com óleo não conseguiam curar enfermidades graves. Esta é a grande diferença. Mas os apóstolos chegavam e de posse do óleo ungiam os doentes graves e ele se levantava. Porém todos sabiam que não tinha sido o óleo em si. Certamente os apóstolos viram pessoas ungidas com óleo, à beira da morte, mas ungiam novamente sendo elas curadas. A nosso ver o óleo só resolvia problemas muito simples. Imaginemos aquela época onde não se tinha nenhum recurso médico e pessoas que estavam doentes e morrendo de enfermidades variadas, mesmo sendo ungidas com óleo, pois era uma unção cultural. Porém, o mesmo óleo que era usado por qualquer pessoa, quando nas mãos dos apóstolos curava de fato.
Se formos olhar o texto de Marcos 6:3 veremos o mesmo termo “terapia” usado para cura ordinária, cura do cotidiano e o verbo aleifw que é usado para essa unção medicinal. Esse é o grande mistério. Os apóstolos fizeram uma unção nos moldes “terapêuticos” mas na verdade não era terapêutico porque o mecanismo de ação do óleo não era medicinal no caso e não tinha condições de ser, pois muitos eram portadores de doenças graves, incuráveis. Tiago recomenda que se tome uma conduta cultural, medicinal, mas que sejam chamados os presbíteros. Por que? Não poderiam chamar um médico (alguém que fizesse tratamento medicinal na época) ou qualquer outro crente? Por que os presbíteros? Porque o ato é cultural, mas o fenômeno é espiritual.
O óleo funcionou como uma credencial apostólica porque os apóstolos ungiam e curavam toda espécie de enfermidade. Eis o transbordamento do elemento cultural para o símbolo do que Calvino chama de sacramento. Não creio que seja bom usar este termo “sacramento” porque pode confundir-nos. O que Calvino estava fazendo era usar o termo “sacramental” para a época apostólica e não para os dias de hoje, pois é isso que a Igreja Romana faz. Essa é a principal razão porque o óleo aparece no cenário sem nenhuma menção prévia ou instituição por parte de Jesus. Não é estranho que um elemento ordenado à Igreja tenha surgido sem nenhuma instituição? O contrário se vê em Corinto, quando a igreja está cheia de normas, mas que são claramente ordenadas. No entanto Tiago estabelece uma ordem não instituída. Tiago está falando de uma prática comum. É como se ele dissesse: “Irmãos, se há alguém doente no meio de vós, então faça o que temos feito há muito tempo, faça unção com óleo”. Lembre-se que os apóstolos fizeram isso antes de Tiago (Mc 6:13). Mas eles fazem ali algo que não foi uma instituição nem um exemplo de Jesus. A única explicação para este elemento que entra como credencial apostólica é que ele foi usado pelos apóstolos para mostrar que aquela medida natural tomada costumeiramente pelas pessoas não funcionava, mas os apóstolos, como eram enviados de Deus, tinham poder de curar os enfermos em nome de Jesus (por isso a unção é em nome de Jesus) e faziam o óleo funcionar, pois os homens normais, sem credenciais apostólicas, não podiam fazer. O óleo funcionava com os apóstolos, mas não com os outros. Daí, o óleo tornar-se símbolo de cura.
Em Atos dos Apóstolos também não aparece nenhum caso de unção com óleo. Mesmo em curas como em At 28:8 (quando Paulo cura o pai de Públio), não está presente o óleo como elemento crucial para a realização de curas miraculosas. Paulo ora, põe a mão sobre ele e o cura. O sinal não é o óleo e sim as mãos. Se o óleo fosse um elemento de extrema importância Jesus tinha dito: “Derramai óleo sobre os doentes”. Mas em lugar disso, Jesus manda colocar as mãos.
Em Corinto (I Co 12:9), havia “dons” (o termo está no plural) de cura paralelamente às outras manifestações do Espírito Santo, mas nada é dito ali sobre o modo como operavam esses dons. Em nenhum lugar Paulo dá ordens para que se use o óleo nestas curas miraculosas. Parece que não era algo de tão elevada importância para o exercício dos dons de cura, mesmo tratando-se da era apostólica.
Irineu (ii. 32. 4), (saindo da época apostólica) que afirmou ainda estar vivendo numa época em que poderes miraculosos ainda existiam e podiam ser testemunhados, nada fala sobre o uso do óleo nas curas miraculosas de seus dias, mas apenas da imposição das mãos sobre os enfermos.
Orígenes (Hom. Ii em Levit. 4), comenta o texto de Tiago 5:14, mas trata apenas da questão do perdão dos pecados, nada mencionando sobre o uso do óleo.
Agostinho (Civ. D. xxii. 8), na sua longa lista de milagres contemporâneos, somente menciona o óleo uma única vez.
Tertuliano ( ad Scap. 4), diz Sétimo Severo, foi curado com óleo pelo cristão Prócolo.
No Evangelho Apócrifo de Nicodemus, Sete pede por óleo da árvore da vida para curar seu pai Adão, mas recebe a resposta de que aquilo é impossível.
Ireneu (i. 21. 5, cf. Agostinho, Haeres. 16, Epifânio Haeres. xxx. 2) afirmou que a seita gnóstica dos Heracleonitas e os Marcosianos ungiam os mortos com óleo e água para protegê-los dos maus espíritos que rodeavam a terra.
Inferimos das palavras de Crisóstomo (Hom. 3 em Mt), o qual magnificava a santidade dos vasos da igreja, que o óleo para ungir os doentes deveria ser retirado das lâmpadas que alumiavam o templo, prática essa usada ainda hoje na Igreja Grega. Ainda Crisóstomo (Hom. Em Mart.) recomenda ungir um bêbado com óleo retirado da tumba dos mártires cristãos, como remédio para curar a bebedice.
Os Nestorianos misturavam óleo e água com algumas relíquias de alguns santos; caso estas não fossem encontradas, usava-se poeira de uma cena de martírio e ungia-se o doente com tal mistura, (Neale, l.c. p. 1036, Greg. T. Mir. Mart. I. 2).
Na verdade, durante os primeiros séculos da igreja parece não haver muita ênfase no óleo como tendo uma eficácia espiritual, como veio a ser concebido mais tarde.
Entendemos com estes fatos que, pelo fato do óleo ter cessado sua eficácia como elemento efetivo na cura dos doentes, alguns se empenharam em acrescentar uma virtude ao óleo (isso acontece nos dias de hoje), ou por consagração especial, ou combinando-o com relíquias de santos martirizados, enquanto que outros, como os Heracleanos e a Igreja de Roma, em tempos posteriores, afirmaram que o óleo retinha uma eficácia espiritual a ponto de perdoar pecados. Não há nenhum registro durante os oito primeiros séculos da história da igreja, de exemplos do óleo com uma eficácia tão grande, podendo ser utilizado até para moribundos (Extrema Unção no século XII), exceto entre os Heracleanos.
O mesmo uso terapêutico combinado com certos ritos religiosos continuou nos primeiros séculos da igreja, como também entre os hebreus, mas que deve ser cuidadosamente distinguido do verdadeiro simbolismo encontrado no Novo Testamento. Tiago fala que a “oração da fé salvará o enfermo”. Não há nada de óleo ungido ou consagrado. Os presbíteros usavam uma medida cultural terapêutica simples, mas curavam doenças graves. Aí está o extraordinário, a credencial apostólica; algo que ninguém fazia (com algumas raras exceções, sob a égide dos apóstolos), nem faz ainda hoje. Nunca os apóstolos tornaram o elemento em algo místico. Isto é antibíblico.
A entrada da heresia quanto ao óleo foi sentida num período ainda cedo na igreja.
Cirilo de Alexandria (De Adorat in spir. Et ver. Vi, p. 211) e Cesário de Arles alertavam o povo contra encantamentos e mágicas, usando exatamente o texto de Tiago 5:14 dizendo que o poder não vinha do óleo. Óleo é apenas sinal. Deduz-se, portanto que a Igreja já enfrentava problema com aqueles que queriam ver algo supersticioso no óleo. Alguns chamam a isso de superstição eclesiástica.
A partir do quarto século em diante, a liturgia da igreja Grega e outras liturgias orientais já continham fórmulas para consagrar o “óleo santo”, do que um bom exemplo é O Sacramentário de São Serapião (quarto século, Egito).
As formas latinas (igreja ocidental) eram da mesma natureza das gregas. Nesta época, o óleo consagrado por um bispo ou por um santo milagreiro era permitido ser administrado a qualquer pessoa sem distinção. A carta do Papa Inocêncio I para Decentius, datada de 19 de Março de 416 diz que “os cristãos doentes têm o direito de serem ungidos com o santo óleo da crisma, o qual, sendo consagrado pelo bispo, não é legal apenas para os bispos somente, mas para todos os cristãos que precisem dele para suas próprias necessidades, bem como para seus servos.” Já no século quinto se vê o óleo tendo o seu uso mistificado.
Antes do fim do oitavo século, contudo, uma mudança ocorreu no Ocidente, pela qual o uso do óleo foi transformado para unção daqueles que estavam para morrer, não como um meio para recuperar o doente, mas com vistas à remissão dos pecados daquele que está morrendo. Não sabemos quanta influência do meio pagão forçou a igreja do ocidente à tamanha mudança. A Igreja já estava demonstrando toda sua corrupção doutrinária.
Sentia-se que as observâncias religiosas tinham um propósito espiritual. Mas retendo-se o elemento físico e dando-lhe uma eficácia espiritual ex opere operato, acontecia assim uma intrusão do físico na esfera do religioso. Agora os cristãos que usam coisas ou substâncias para a fé, estão fazendo uso mágico destas substâncias.
O sacramento da Extrema Unção é mencionado pela primeira vez entre os sete sacramentos da Igreja no século XII. Foi discutido e decretado no Concílio de Trento (na pós-Reforma), que “a santa unção do doente foi um sacramento estabelecido por Cristo e promulgado aos crentes por Tiago, apóstolo e irmão de nosso Senhor”. Os Católicos buscam o fundamento da extrema unção no texto de Tiago 5.
O Concílio Vaticano II continua tratando a extrema-unção como um dos sete sacramentos, e que não deve ser ministrado somente aos que estão à beira da morte, mas aos que estão em perigo de vida, podendo morrer a qualquer hora. Aplicando para nossos dias, assim seria: alguém está com câncer, então deve ser ungido com óleo. Hoje os católicos ungem os que estão com doenças graves, mesmo que não estejam em estado final. É a extrema-unção sendo usada para os casos de perigo de morte.
De qualquer maneira a história mostra a transformação de um costume popularmente praticado, puramente medicinal, para um ritual estritamente religioso, com regras fixas de administração. Saíram de algo cultural, jogaram um elemento religioso sobre o óleo e estabeleceram regras sacramentais para ministração deste óleo.
CONCLUSÃO:
Nossa conclusão dos fatos relatos aqui são as seguintes:
1) Em todo o Novo Testamento não existe sequer uma referência ao “óleo ungido”, “óleo consagrado” em que se faz oração sobre ele para que passe a ter poder em si mesmo. O único óleo considerado santo e sacralizado é o óleo da unção sacerdotal, da unção de profetas e reis em Israel no Velho Testamento. Mas nada de óleo consagrado para cura. Essa linguagem é totalmente estranha ao Novo Testamento. Essa linguagem começou a surgir com a entrada do paganismo na igreja, a partir do quarto século, sem deixar de mencionar que durante os primeiros séculos da igreja sempre houve casos de superstições com o uso do óleo. A Igreja sempre conviveu com surtos de abordagem supersticiosa do uso do óleo.
2) A igreja apostólica nunca reconheceu o uso da unção com óleo como uma fórmula que deveria fazer parte do culto ou da praxes pastoral. Mesmo durante uma era de grandes sinais e prodígios, Lucas não achou importante relatar casos de unção com óleo como um modelo de igreja madura que deveria ser seguido. Se a unção com óleo tivesse sido um modelo de liturgia, de doutrina para uma época de uma igreja madura, certamente seria tratado pelos autores do Novo Testamento e certamente teria sido praticado na igreja dentro de um contexto judaico-gentílico. Mas só vamos encontrar o uso do óleo num contexto puramente judaico.
3) Em nenhum lugar no Novo Testamento é dada ao óleo uma natureza de eficácia espiritual, como querem muitos movimentos modernos de sinais e maravilhas, que nada mais é do que uma abordagem Romana da questão. O óleo sempre foi tratado como um símbolo, sem nenhuma eficácia espiritual, pois o poder da cura estava na oração, e não no óleo. Ou seja, os pais pós-apostólicos já combatiam este erro de “óleo consagrado” dizendo que a oração é sobre o enfermo e não sobre o óleo. O poder da cura não está no óleo e sim na oração.
4) Todos os movimentos de sinais e maravilhas, bem como os crentes que de alguma forma estão envolvidos com a prática da unção com o “óleo ungido ou consagrado” deveriam estar cientes de que esta prática não foi apostólica, nem tampouco se encontra no Novo Testamento, mas consiste de uma prática intrusa do paganismo que entrou na Igreja, e foi uma prática iniciada pela igreja num período de trevas, a partir do qual chamou-se Igreja Católica Romana. Quando começamos a lembrar do período em que a Igreja começou a usar o óleo dos candeeiros porque eram “sagrados” vemos que era uma época em que a Igreja estava caminhando para um afastamento da tradição apostólica.
5) Portanto, a prática da unção com o “óleo consagrado” é uma prática pagã, com suas raízes no gnosticismo (os gnósticos usavam o óleo de forma mágica) e religiões mágicas e de encantamentos, não devendo ser imitado pela verdadeira Igreja de Cristo em época alguma. Grosso modo, isto também seria seguir os caminhos de Roma. Que prática condenável é esta que estamos enfatizando? Colocar o poder mágico no óleo. Isso nada mais é do que colocar poder especial no óleo; essa é uma prática pagã. São práticas pagãs que se vê na Igreja Universal do Reino de Deus, como, rosa ungida contra o despacho de macumba (não é só o óleo), o copo com água, etc. É uma mistura da religiosidade popular pagã com a versão supostamente evangélica praticada pela Igreja Universal do Reino de Deus o que mostra ser esta uma igreja comprometida com o paganismo. O mesmo se aplica para o “óleo ungido de Israel” usado por muitas igrejas carismáticas. É uma prática que vem das religiões pagãs. Os apóstolos nunca utilizaram esta prática e se tivessem utilizado, em que o povo creria? Creria que o poder vinha do óleo e não dos apóstolos (Mas infelizmente é o que se vê hoje). Os olhares não convergiriam para Deus e sim para o elemento – o óleo; a fé não seria canalizada para Deus e sim para o objeto – o óleo.
Os apóstolos nunca fizeram isto e sim tomaram uma medida cultural e mostraram que aquilo que os judeus da época não podiam fazer eles faziam, mas, não porque o poder estivesse no elemento em si mesmo mas em Deus. Os olhares deveriam convergir para o resultado que estava em Deus. Os apóstolos não poderiam fazer do óleo um elemento que tivesse poder, pois assim a glória seria do óleo. Sem a tradição apostólica alguém diria que aquele óleo teria poder. Este não é o modelo cristão de fé.
A UNÇÃO COM ÓLEO NO NOVO TESTAMENTO
O primeiro detalhe importante que precisamos deixar bem claro aqui é que há duas palavras para “unção” no Novo Testamento, e que ambas têm significados diferentes. Isto é muito importante para o nosso estudo, pois muita confusão tem sido feita em torno deste tema devido à falta de distinção dos significados destas palavras. Vejamos cada uma delas:
O primeiro termo grego que vamos enfatizar é aleifw (ungir), que aparece 8 vezes em todo o Novo Testamento, [fazendo um contraste com criw (ungir)], e refere-se a uma atividade física de derramar óleo sobre alguém, relacionando-se sempre à unção de pessoas. O termo é usado exclusivamente para: embelezar (Mt 6:17), como sinal de honra a um hóspede (Lc 7:38, 46; Jo 11:2; 12:3); honrar os mortos (Mc 16:1); e curar os enfermos. O termo pode ter outros empregos remotos e particulares, mas os usos mais importantes na cultura judaica eram estes. Digamos que era uma unção que qualquer pessoa poderia fazer.
O outro termo grego é criw (ungir), que aparece apenas 5 vezes no Novo Testamento, e que dá origem à palavra “crisma” (unção - só 3 vezes). Criw é um termo religioso e refere-se à unção religiosa. Diz respeito a uma comissão divina e sempre é símbolo do Espírito Santo. Se “crismava” um Rei porque o Rei governava como Deus queria, através do Seu Espírito; o mesmo se fazia para o profeta e sacerdote. Eles eram ungidos. O termo “crismar‘’ significa conferir o Espírito de Deus àquele que é crismado. Mas o que ocorre nos dias de hoje é tomar-se o significado de aleifw e transferi-lo para criw. Ou seja, sacralizam a unção não religiosa dando a idéia de que o sentido de aleifw está em criw; mas isso não pode ser. Quando vamos para Tiago 6:13, 5:14-15, encontramos exatamente aleifw. Jamais se usa criw para unção de enfermos. Isto, porque criw tem relação com o Espírito Santo, significa comissionamento divino.
O emprego destas duas palavras no Novo Testamento corresponde ao mesmo uso na LXX (Septuaginta). A unção crisma (criw), designa uma metáfora para a outorga do Espírito Santo, de poder especial e de uma comissão divina. Este termo é o mesmo usado na LXX para unção de sacerdotes e de reis. Esta unção era vinculada com o dom do Espírito Santo e com a proteção especial de Javé. O ungido ficava em contato direto com Deus e era considerado inviolável. Usa-se muitas vezes esta expressão de ungido para o pastor (mas é apenas no sentido figurado de unção de I João 2:20,27), mas ele não foi ungido como o profeta ou sacerdote do VT. Na verdade, todos os crentes têm a “crisma”, porque agora João emprega “crisma” num sentido espiritual para dizer: “Vocês têm o Espírito de Deus, por isso estão aqui, pois conseguem discernir a verdade do erro e só conseguem fazer isto porque têm o Espírito Santo”.
Em Isaías 61:1, a unção deve ser entendida como um revestimento carismático de autoridade, o que é aplicado a Jesus em Lc 4.18: “O Espírito Santo está sobre mim”. Jesus foi ungido neste sentido. A unção descrita por criw refere-se sempre a um derramamento especial do Espírito Santo para um ofício ou comissão dirigidos por Deus. Tudo isso não é o sentido de aleifw pois aleifw é cultural. Aqui é outro significado. É nesse sentido (criw) que deve sem entendida a unção de Jesus como sendo uma unção real e sacerdotal. Essa é a unção da qual fala João, que todos os crentes têm, pois ela está ligada à obra do Espírito Santo que faz os crentes lembrarem da verdade pregada por Jesus. É uma atividade do Espírito em fazer os crentes maduros suficientes para o discernimento entre a verdade e o erro. Portanto, “crisma” (criw) de João 2:20 e 27, é exatamente o discernimento dado pelo Espírito de Deus para que os homens conheçam e façam distinção entre a verdade e o erro. Este é o contexto desta passagem.
IMPLICAÇÕES DE ALEIFW e CRIW PARA NOSSO ESTUDO:
Quais as implicações destes dois termos gregos para nossa análise do tema?
1) Temos dois termos gregos usados para um mesmo ato (unção), mas que são empregados para significados diferentes porque as idéias são diferentes. Enquanto aleifw é um termo comum que sempre se refere à práticas culturais como embelezamento, saudação, honra e curas de enfermidades, criw sempre refere-se ao aspecto religioso, à unção religiosa. No Novo Dicionário Teológico um dos comentaristas diz que a unção em Tiago (aleifw) depois tornou-se símbolo de exorcismo. Ele diz: “É possível que este termo tenha sido usado para exorcismo”. Mas não cita nenhuma fonte ou documento. Alguém poderia perguntar: “Mas aleifw também não funciona?” Sim, o sentido de aleifw, que tem o significado de algo que não é religioso, funcionará com uma abordagem religiosa, mas em si aleifw não é uma prática religiosa e sim uma prática comum dentro da própria cultura.
2) Criw sempre se refere a alguma obra especial do Espírito Santo. Algumas vezes, na septuaginta, aleifw é usada como criw, mas nunca criw como aleifw, porque criw era coisa santa, representava o próprio Espírito comicionando. Aleifw refere-se sempre às questões corriqueiras do dia-a-dia de um judeu.
3) Muitos têm interpretado a unção de Tiago 5:14 e Mc 6:13 como uma forma de unção especial do Espírito Santo, ou um derramamento especial de poder espiritual para realizar a cura, mas não é, pois em ambos os casos o verbo grego é aleifw e não criw. O termo não é de unção com o Espírito Santo. Mas no NT ninguém se atreve a usar o termo criw para uma pessoa que está doente, pois o sentido é outro. Este termo citado nos textos não é usado para derramamento de poder para realizar cura. Tentar levar um significado estranho às palavras do Novo Testamento é perverter o texto sagrado para o nosso próprio juízo. Quem escreveu os dois textos acima não usa criw porque não está se referindo a este sentido de unção para comissionamento, para receber Espírito Santo.
4) É evidente que quando Marcos e Tiago fazem uso de aleifw, eles não pretendem falar de unção do Espírito Santo, pois usaram um termo muito comum na sua época que não tinha o mesmo significado de criw. Jamais um judeu usaria este termo criw e sim aleifw. Marcos 6:13 usa o termo eqerapeuon (“curavam” — em português, terapia), mostrando uma relação muito próxima entre unção e cura, entre unção e o uso terapêutico. Era uma medida terapêutica, mas fazendo-a funcionar divinamente.
5) Portanto, os termos usados pelos escritores sagrados nos mostram que não havia algo mais do que um simbolismo cultural de cura na unção com óleo do Novo Testamento, termos estes que faziam parte da realidade judaica dos tempos de Marcos e de Tiago.
O TEXTO DE TIAGO 5:14: O uso de euch em lugar de proseucomai
O texto de Tiago 5:14 apresenta algumas curiosidades exegéticas que não podemos ignorar:
1) A primeira delas é o fato de Tiago usar constantemente o termo proseucomai para “orar” (v.14), mas no verso 15, quando se refere à “oração da fé” emprega a palavra rara euch, que aparece, além da Epístola de Tiago, só duas vezes no Novo Testamento significando “voto”. Esta palavra nunca é usada para oração. É estranho e incomum o uso que Tiago faz desse termo, pois ele sempre se refere à oração pelo termo proseucomai. No v. 16 ele diz: “...orai uns pelos outros, para serdes curados”. Aqui Tiago também não usa proseucomai e sim euchomai. Esta palavra euch foi colocada “à dedo”, não foi colocada casualmente. Não pode ser acidental o fato de Tiago usar euch em um único lugar de sua epístola contra tantos outros casos onde escolheu usar proseucomai. A questão é saber porque Tiago usou a palavra para “voto” (euch) em lugar de “oração”. Um certo comentarista afirma que Tiago não estava pensando em uma oração comum, pois se assim fosse teria usado o termo proseucomai, mas aí não há uma idéia de oração comum. Todos os autores chegam a conclusão de que a oração de Tiago (“oração da fé”) não é qualquer oração que fazemos como: “Senhor, tem misericórdia, cura fulano!”. A diferença está exatamente aí, pois para isso ele usa sempre proseucomai, mas quando chega na “oração da fé” ele usa euch que não é oração e sim um “voto”. A tradução seria: voto da fé. O sentido desta palavra é fazer uma declaração de plena confiança - eucomai. Não haveria nenhum problema se esta palavra fosse abundantemente encontrada no Novo Testamento significando oração, mas não há. Mas esse significado somente é atribuído à Tiago. Nas outras duas passagens onde ocorre euch (At 18:18; 21:23), o significado é de um voto.
Muitos tradutores têm traduzido euch por oração, creio que isso se dá devido às idéias sobre oração e o uso constante de proseucomai. A idéia de que Tiago não estava falando da “oração da fé”, e sim de “voto da fé”, é o fato de que foi buscar uma palavra muito rara e distinta de oração, com o objetivo de trazer algo novo para seus leitores. Certamente, pois todo tempo, na epístola, ele sabe muito bem qual a palavra adequada para oração, mas quando chega na expressão “oração da fé” ele muda o vocabulário para uma palavra que só aparece três vezes no NT e que não significa oração. Seria absurdo imaginar que, depois de usar tantas vezes o termo “oração”, anterior e posterior à euch, Tiago tenha escolhido uma palavra errada exatamente para descrever “a oração da fé”, no verso 15. Ele vai explicar isso de “voto da fé” na oração de Elias, mais adiante. A ênfase no uso das duas palavras num mesmo contexto é distinta.
A passagem inteira de 13-18 refere-se à oração, e a verdade central sobre a oração é uma deliberada e pacífica aceitação da vontade de Deus. Quando Tiago fala na “oração da fé” ele parece, intencionalmente, dirigir nosso olhar não para o coração dos presbíteros que oram, mas para o resultado que esse tipo de oração produz. Em outras palavras, ele parece falar de fé, não como um compromisso com a vontade de Deus, mas como uma convicção de que é a vontade de Deus realizar aquela cura. A grande maioria dos teólogos dizem que euch refere-se à certeza que se tinha de que o doente ficaria curado (não foi usada a palavra proseuch). Euch é uma convicção exata, clara de que o doente será curado. Por isso, no v. 16 ele diz que eles orem uns pelos outros para que sejam curados. O verbo usado é eucomai e não proseucomai. É uma oração de certeza; certeza de que o que foi afirmado, acontecerá. Aquela “oração da fé”, em Tiago, não é qualquer oração. Por isso vemos tanta certeza em Tiago. Ele diz que a oração dos presbíteros (“oração da fé”) salvará o doente. Ele não diz que esta oração é um “empurrãozinho” ou que orem muito, sem parar, porque o justo muito pode em suas súplicas. Não é por muito suplicar, como muitos pensam, que o justo pode, mas é uma situação apresentada mais adiante na vida de Elias que orou, suplicou por chuva e Deus mandou chuva. Qual foi a oração de Elias? Ele orou por algo que Deus havia dito que aconteceria (I Reis 18:1). Elias não orou suplicando para que Deus visse a necessidade do povo ou que seria bom para a terra; não, a oração de Elias é revelacional, pois primeiro Deus lhe comunica que vai chover, então, Elias ora. Esse é o tipo de oração que está na mente de Tiago aqui. Por isso ele diz que a oração dos presbíteros salvará o enfermo; algo revelacional existia. Os defensores do Movimento de Sinais e Maravilhas desejam o mesmo e assim decretam cura. O modelo é bíblico, mas não funciona. Por que? Porque não estamos na era apostólica, a eles não lhes é nada revelado.
Aquela cura em Tiago não era uma mera solicitação a Deus, arriscando ou desconfiando se Deus vai responder. Ao contrário, ele diz que a “oração da fé salvará” o doente. Hoje quando oramos temos a certeza que Deus salvará? Que nossa oração por cura não falha em nenhuma oportunidade? A oração dos presbíteros, na época apostólica, era um voto a Deus, era feita em profunda confiança, em certeza absoluta. A certeza absoluta só vinha com Deus revelando que iria curar. A “oração da fé” (euch thV pistewV) é a convicção de que aquela é a vontade de Deus para o enfermo. Ainda no verso 16, Tiago emprega o verbo eucesqe (eucomai na sua forma imperativa – “orai”) que ocorre apenas 6 vezes no Novo Testamento e sempre se refere uma oração-voto. Em III João 2 temos o mesmo verbo: “Amado, acima de tudo faço votos (ou “oro” – eucomai) por tua prosperidade e saúde...”. A idéia é de uma certeza absoluta. Em todas as vezes que aparece este verbo eucesqe (6 vezes) vemos que é usado em orações de certeza (por exemplo: Atos 27:29). A idéia é de uma certeza indiscutível. Calvino e a maioria dos teólogos Reformados (comentários críticos) convergem todos para o mesmo ponto sobre esta palavra: eucomai. Jesus disse: “Se vocês orarem crendo que receberão, serão atendidos”. Então, o apóstolo faz referência à oração de Elias para exemplificar o modelo da oração da fé: aquela que tem sua origem em Deus. A oração de Elias, antes de ter sido proferida, foi dada pelo Espírito Santo. Este fato revelou-lhe a vontade de Deus, e assim tornou-o ousado em pedir a coisa desejada. Manifestamente, este tipo de oração pela cura, ou seja, a oração dada por Deus é que produz a recuperação dos enfermos. (CURA MIRACULOSA, Henry Frost, Editora PES, p. 61).
O CONTEXTO DE TIAGO 5:14
A epístola de Tiago possui traços bem judaicos, apesar de ser um documento genuinamente cristão. A sua autoria é Tiago irmão de Jesus. Tiago morreu no ano 62. Sua epístola é tida como escrita por volta da segunda metade do primeiro século da era cristã.
Tiago endereça a sua epístola “às doze tribos que se encontram na Dispersão” (Tiago 1:1). Isto pode ser uma referência normal aos judeus cristãos dispersos por todo império Romano.
O uso do termo “sinagoga” em Tiago 2:2 reflete uma época ainda bem primitiva do cristianismo.
A Epístola de Tiago tem características bem distintas das outras. Ela é praticamente, uma parênese, consistindo numa interpretação visível da religião cristã. Tiago não apresenta temas doutrinariamente relacionados com o mistério revelado no evangelho como Paulo faz. Ele apenas cita o nome de Jesus duas vezes em toda a sua epístola (1:1; 2:1). “É, por conseguinte, uma revelação primária, parcial e intermediária entre a igreja cristã primitiva, na qual as condições judaicas prevaleciam, e a igreja cristã posterior, onde as condições gentílicas prevaleciam” (Henry Frost). Lutero rejeitou esta carta (erradamente) por falar só sobre obras e Lei e ser “muito judaica”. Mas essa época é o início da Igreja e os primeiros cristãos eram judeus. É possível que esse seja o contexto em que o óleo é usado entre judeus.
Implicações teológicas do contexto:
1) O texto de Tiago 5:14 faz referência à “presbíteros”, que eram, geralmente, homens maduros e experimentados na liderança da igreja, e oficialmente designados pela mesma. Devemos salientar também que não há nenhum caso ou ordem no Novo Testamento de uso da unção ministrada por qualquer crente. Não há nada nas Escrituras como “ungi-vos mutuamente!”, mas “orai uns pelos outros para serdes curados”. Tiago, neste texto, manda chamar os presbíteros para orarem e ungirem com óleo. Em Mc 6:13 trata-se de credencias apostólicas, e Tiago, pelo fato de sua epístola ainda estar mais perto da era apostólica, reflete um caráter todo especial de um dom, numa época em que a revelação de Deus ainda continuava sendo autenticada por sinais. Mesmo em Tiago 5:17, a idéia de “orai uns pelos outros para serdes curados” não implica necessariamente em unção, pois Tiago já definiu anteriormente o uso do óleo. Tiago não está dizendo para que os irmãos ungissem uns aos outros. A idéia aqui é genérica e refere-se ao que ele já definiu como oração pela cura.
2) O uso do óleo não teria apenas uma intenção medicinal em si mesmo, mas o ato representava a cura, pelo fato da oração fazer um ato natural funcionar numa enfermidade que jamais seria curada por uma simples unção com óleo. Devemos acrescentar ainda que se a intenção fosse apenas terapêutica, eles deveriam chamar os médicos e não os presbíteros. Além do mais, se fosse o óleo que curasse, qualquer pessoa poderia ungir. Mas Paulo diz que os presbíteros deveriam ser chamados. Deveria haver um poder espiritual.
3) O tipo de enfermidade não era do tipo “dor de cabeça” ou “dor de dente”, mas o texto faz referência a um certa impossibilidade do enfermo ir até aos presbíteros, dando a entender que são os presbíteros que têm de vir ao enfermo. Havia um ato domiciliar. O verbo grego usado para essa enfermidade nos dirige para uma doença grave. Isso somente ocorreria devido ao fato de uma enfermidade gravíssima que o impossibilitasse de procurar os presbíteros. O texto diz que os presbíteros deveriam ser chamados e não que o doente fosse a eles (completamente diferente de hoje onde as pessoas são incitadas a buscar certas igrejas). Além disso, se Tiago não estivesse tratando de enfermidade grave e incurável, não seria preciso chamar os presbíteros, mas sim os médicos. Não era um qualquer “sujar com óleo”, mas uma medida séria que deveria ser tomada: chamar os presbíteros para fazer uma oração porque o medicamento usado não curava. Em todo o Novo Testamento não há sequer uma passagem que nos mostre Jesus e os apóstolos curando doenças simples com óleo. Parece-nos que o óleo sempre foi uma medida muito séria para casos muito sérios. O óleo sinalizava os poderes do céu (do Espírito Santo) contra aquelas doenças graves e não contra doenças banais; confrontava-se com a falência humana.
4) O ministério da oração com unção e cura está associado ao ministério privado da igreja. Quando Tiago diz “chamem os presbíteros da igreja”, ele não está pensando mais em ministério intinerante ou público para o uso do óleo, nem em movimentos para-eclesiásticos de unção com óleo. Mesmo que alguém use o texto de Marcos 6:13 para reivindicar um ministério público do uso do óleo, deveria perceber que na época de Tiago a Igreja já existia em forma organizacional (já existiam os presbíteros), e que o conselho de Tiago dirige-se ao corpo organizacional da igreja, pois já desde aquela época toda a revelação está sendo dirigida às igrejas domesticamente organizadas e localizadas em todo o império Romano. Isto era comum na sua época, além do fato de ele usar a expressão “está alguém doente entre vós?”, que é uma clara referência a um grupo, à Igreja.
5) A ênfase de Tiago não está na unção, nem no perdão dos pecados. (Este é um argumento forte contra o pensamento Romano de perdão de pecados). Ambos são incidentais quanto ao tema oração. O óleo é citado como uma medida natural e cultural que funcionará através de um poder sobrenatural, o da oração, ferindo a mente incrédula que estava acostumada a não realizar curas daquele porte com uma simples unção de óleo. Mesmo tratando-se doenças incuráveis com o uso comum do óleo, a “oração da fé” faria com que um simples derramar desta substância curasse enfermidades graves. O perigo de mistificar o óleo é tão grande, a partir deste texto, que podemos comprovar nos dias da igreja pós-apostólica e nos nossos dias, quando muitos têm usado o óleo até mesmo como relíquias. Mas a prova de que Tiago não está querendo ensinar algo sobre óleo é que ele afirma que “a oração da fé salvará o enfermo”, e não o óleo. Hoje se faz uma teologia tão “profunda” do óleo que Tiago nem “alcançaria”. Hoje, Tiago talvez dissesse: “Parem! A oração da fé salvará! Saiam do óleo e vão para a oração!”. Tiago não nos deixa ficar com os olhos fitos no óleo. Por isso que Orígenes usou este texto de Tiago para falar contra a mistificação do uso do óleo, quando hoje é exatamente o contrário. Sendo assim, o óleo equivale a medidas naturais e culturais paralelas como a saliva que foi usada para a cura do cego (Jo 9:6-7); impor as mãos (At 28:8); ordenar uma palavra (At 9:40); abraçar (At 20:9-10); colocar os dedos nos ouvidos e tocar a língua (Mc 7:31-35).
O sinal do óleo, como qualquer outro sinal externo usado na cura, representa a emissão de poder por parte daquele que emprega o sinal. Hoje se quer dar poder ao óleo, mas o óleo é que está dizendo que quem o usa é que tem poder (que lhe é dado). Perguntamos: Você tem coragem de usar o óleo como os apóstolos e os presbíteros usaram na época apostólica? É uma grande responsabilidade, tanto é que a palavra é euch e não proseucomai. Quando eles usavam o óleo, aquele elemento estava dizendo para todos que havia cura à vista, que agora haveria manifestação de poder daquele que estava usando-o. O óleo não tem poder e sim que é um sinal, que significa que haverá cura. Era a “oração da fé salvará” que salvaria; não havia meio termo. O óleo está intimamente relacionado com a oração dos presbíteros. Vamos trabalhar essa questão mais adiante.
Quanto à referência ao pecado, o texto é claro em empregar uma partícula condicional: “se houver cometido pecado”. Ele não quer falar sobre o pecado, o que indica que a ênfase ao perdão é mínima, pois toda ênfase do texto é na oração. Mas Tiago sabe que algumas enfermidades vêm como fruto de algum pecado. Ele diz que se alguém, que vai ser curado, tiver pecado, deve confessa-los e Deus perdoará. Os pecados tinham de ser perdoados. Não havia a prática de chamar as multidões para curá-las como se faz hoje. Lembramos que não era para a multidão e sim (“se há entre vós”) para os crentes, pois não há unção para descrentes. Com os apóstolos curas ocorreram entre as multidões por causa das credenciais apostólicas e o mundo inteiro estava testificando que aqueles homens realmente eram de Deus e estava se estabelecendo a inauguração da nova aliança. Mas agora, na Igreja estabelecida, é entre “vós” e os presbíteros e não para todos os que passavam “lá fora” que deveriam ser ungidos. O que cometia pecado e estava doente deveria ser resolvido o seu problema de pecado. Era o princípio de Levítico 6.
6) Nada há explícito no texto de que o doente deverá orar para ser curado. Aqui, cai por terra a idéia de que devemos orar pelos doentes e se eles tiverem fé ficarão curados. O texto afirma que a oração é dos presbíteros (que salvará) e não do enfermo. São os presbíteros que oram sobre o enfermo (ep auton), e não o enfermo sobre ele mesmo, exceto os casos em que a doença foi causada por pecado, mas ainda assim, o doente orará apenas confessando seus pecados e não para ser curado.
7) O texto aplica-se a casos raros de enfermidade que podem acontecer na igreja. Não há nenhuma indicação no texto nem no Novo Testamento de uma ordem ou mandamento para a igreja desenvolver um programa litúrgico, público e sistemático da unção com óleo. A maneira com a qual Tiago trata a questão dos enfermos demonstra que as medidas deveriam ser tomadas apenas quando houvesse enfermos entre os crentes: “está alguém entre vós doente?”. A unção não era usada todos os dias, mas em caso de doenças graves.
8) A unção com óleo não foi uma instituição feita por Jesus, sendo um elemento encontrado na própria cultura judaica, e naturalmente útil para confirmar, sobrenaturalmente, as credenciais dos enviados de Deus. Também não podemos imaginar que os apóstolos realizaram-na contra a vontade de Jesus. Os apóstolos encontraram este elemento cultural, pois já era símbolo de cura em Israel porque curava enfermidades pequenas e quando estes apóstolos usaram o óleo e realizaram com ele curas de doenças incuráveis, isto se tornou uma credencial de um simbolismo de cura divina.
9) A época em que Tiago está escrevendo é uma época em que a revelação profética ainda está caminhando para sua perfeição. A igreja ainda está convivendo com profetas e apóstolos. As verdades reveladas estavam sendo confirmadas através de sinais. Ninguém poderia afirmar estar curando um enfermo “em nome de Jesus” e falhar nessa cura. Isto indicaria, no contexto, total perda de credibilidade em Jesus, na nova aliança (para os judeus), e conseqüentemente, descredenciamento profético e miraculoso do cristianismo apostólico. Não há nenhum caso em que uma cura realizada pelos apóstolos tenha falhado. Isto implicaria na falha da própria revelação e do Cristo que estava sendo anunciado. O único momento em que houve um falha dessa foi o caso dos discípulos que não conseguiram expulsar um demônio de um jovem (Mt 17:14-21), mas isto foi totalmente irrelevante porque Jesus estava presente, e portanto não deixou que seu nome fosse envergonhado, como exclamou o pai do jovem: “Apresentei-o a teus discípulos, mas eles não puderam curá-lo.” Assim como Jesus, Tiago também não admitia falha na oração da fé. Ele não afirma que talvez a oração da fé salvasse o enfermo. Nada disso! Tão certo como Elias orou, a oração da fé curava. Mas hoje vemos falsos profetas derramarem óleo na cabeça de muitos doentes e não acontecer nada. Esse não é o procedimento que Tiago aponta, pois ele demonstra que a unção é o sinal do que realmente vai acontecer. Se você unge e nada acontece, esta unção está indicando seu fracasso total. Se ele sinaliza a cura, onde está essa cura? Se não há, que sinal é este? Se o sinal sinaliza a cura e ela não acontece, será este sinal, uma testemunha contra você. É o mesmo que acontece com o batismo. Quando somos batizados diante da igreja e do mundo, este batismo é uma testemunha contra nós mesmos caso não vivamos uma vida de santidade, por ser um sinal de algo que aconteceu conosco.
10) O uso do óleo sem a certeza de que Deus levantará o enfermo, torna o óleo um símbolo de fracasso da oração da fé e ao mesmo tempo profana o nome de Jesus, pois a unção é feita “em nome de Jesus” (Calvino dizia que se usarmos um elemento em nome de Jesus vamos, em muito, “expor” o Seu nome, porque o elemento vai dizer: Este elemento representa o nome de Jesus e não funciona). Isto não poderia acontecer na era apostólica. O sinal do óleo em um enfermo não curado representa um uso para o qual Tiago não estabeleceu em sua epístola. O óleo somente deverá ser aplicado relacionado à eficácia da oração, pois ele é um sinal. Mas se não houver cura alguma, o que então representará o óleo? A resposta é: apenas sinalizará fracasso e desonra do nome de Jesus. A unção foi ordenada para representar a eficácia da oração e do nome de Jesus, e não o contrário. Se, em sua época, Tiago estivesse pensando em um arriscado uso do óleo, podendo este funcionar ou não, ele certamente estaria condenando a revelação de Deus a uma falácia cheia de enganos e desacreditando o nome de Jesus.
11) A invocação do nome de Jesus no batismo e nos ritos de cura e exorcismo era muito comum na igreja primitiva. Esta prática indicava que ao invocar o nome de Jesus, a pessoa estava agindo como um representante de Deus exercendo o poder de Deus. Quando hoje alguém ora para expulsar demônios em nome de Jesus ou para curar uma enfermidade e não consegue, no máximo seria falta de fé, mas na época apostólica seria motivo de total descrédito. Esse tal seria chamado de falso profeta e extirpado do meio da Igreja. O nome de Jesus representa o Seu próprio poder operando. Por isso, quando não se opera o milagre em nome de Jesus, Seu nome é profanado. É o que Calvino diz. As pessoas não atentam para isso, infelizmente.
A QUESTÃO DA FUNÇÃO SACRAMENTAL DO ÓLEO
Tanto Marcos 6:13 quanto Tiago 5:14 definem o uso do óleo como sinal de eficácia do nome de Jesus. Em nenhum destes textos há a sugestão de se usar o óleo sem eficácia de cura. Por que? Se usarmos o óleo sem representar a eficácia da cura o que representará? Sem dúvida vai representar alguma coisa. Mas o que? Representa, nesse caso, um amuleto. Se a pessoa que usa o óleo sem certeza da cura, estará usando o óleo com o propósito de “ajudar”. Há sentido em se usar um sinal para uma coisa que não existe? O óleo sinalizaria algo que não existe? Parece ser um uso totalmente inócuo sua administração naqueles que não são curados, a não ser que se creia que ele tenha algum poder ou virtude em si mesmo para curar. Este é o ponto chave do assunto. Se ele representa a cura, perguntamos: onde está a cura? Se não existe, por que se usar um sinal para algo que não existe? Então estaremos usando o óleo pensando que ele vai “tornar possível”, que vai ajudar naquilo para o qual está sendo usado. Se você tem certeza (recebeu uma revelação – e isso não acontece mais) de que a cura acontecerá, sinalize com o óleo. Na cultura judaica o óleo era usado como um elemento terapêutico, em coisas simples, mas só os apóstolos faziam com que ele “funcionasse” para sarar doenças incuráveis; que ele “realizasse” milagres. Os presbíteros fizeram isso na época apostólica e o doente levantava do seu leito. Aí o óleo era o sinal da cura. Mas a cura vem de cima, de Deus, e o elemento, o óleo, era o sinal de que Deus cura. A mesma coisa os apóstolos fizeram. Ao colocar as mãos sobre o enfermo eles sinalizavam que o poder vinha de Deus através deles. Quando Jesus fez o “lodinho” e colocou nos olhos do cego era para mostrar o Seu poder e não que viesse do lodo.
A questão que deverá ser levantada é: É permitido o uso do óleo sem alguma garantia da cura? A resposta é: Não! Eis as razões:
1) O uso do óleo sem perspectiva de eficácia era feito por religiões pagãs paralelas à época do Cristianismo e entrou na igreja cristã já nós primeiros séculos da igreja. Óleo sem perspectiva de eficácia o que é? Nada! A não ser que se ache que o óleo tem virtude nele mesmo. Neste caso não é mais sinal.
2) Não há no Novo Testamento o uso do sinal sem perspectiva da cura. A maioria dos comentaristas do N.T. entendem dessa maneira. Calvino pensava assim. Usá-lo sem perspectiva de cura é profanar o nome de Jesus; é dizer que é um sacramento quando não o é.
3) Teologicamente inferimos que, se alguém usa o óleo para representar algo que de fato não existe, então seu uso, logicamente, estará sendo direcionado para um significado de eficácia no próprio elemento. Daí surgem as superstições eclesiásticas quanto ao uso do óleo.
4) A não ser que tiremos o significado de “sinal da cura”, seria absurdo administrar o sinal de uma irrealidade. Se perguntarmos para alguém: Por que você usou o óleo? Ela será obrigada a dar uma das duas respostas: “Porque é um sinal!”, ou “Porque ele tem virtude em si mesmo!” Se alguém responde que é sinal, devo perguntar: Onde está, pois a realidade que o sinal sinaliza? Se não há a realidade sinalizada, por que se usou um simbolismo para algo que não existe? Talvez a pessoa respondesse: “Eu esperava que houvesse a realidade!”. Mas usar o símbolo para algo que ainda vai existir ou poderá existir é uma contradição, ou seja, como pode existir sinal sem o seu conteúdo? Este é o argumento de Calvino. Calvino dizia que nós não podermos usar isso porque a coisa realizada já cessou. A realidade indicada pelo sinal já cessou. Calvino era cessacionista. É como imaginar uma bandeira que represente uma nação que não existe mais no planeta. Diante de outras nações essa bandeira não terá nenhum valor simbólico, pois a realidade a qual ela representa não existe mais. Mas se queimamos uma bandeira de uma nação estamos ferindo a realidade simbolizada por ela. Não existe símbolo sem uma realidade por trás.
5) O mesmo se diz dos sacramentos, que além de selos, são também sinais (“santos sinais”— Confissão de Fé de Westminster) que não podem ser administrados à indivíduos nos quais não podem sinalizar a realidade que significam. Alguns podem utilizar este meu argumento para justificar o uso do sinal sem a realidade sinalizada, quando batizamos e ministramos ceia aos que de fato não convivem com a realidade significada pelos sacramentos; assim o mesmo poderia ocorrer com o óleo. O pastor sabe quem de fato é crente ou não? Não! A pessoa pode não ser convertida (falso crente) e é ministrada a ela o sacramento. A isso, alguém pode argumentar: já que você ministra o sacramento a esta pessoa sinalizando o que não existe na vida daquela pessoa, eu poderia usar o óleo também. A isto respondo que este argumento não é convincente pelo fato dos sacramentos sinalizarem coisas espirituais (a cura não, pois é algo visível e evidente), que é quase que totalmente impossível constatar a realidade sinalizada nos sacramentos. Quanto ao óleo é diferente, pois a cura é uma realidade visível e pode ser constata tanto pelo ministrante quanto pelo enfermo. Além do mais, as pessoas podem profanar os sacramentos, abandonando o evangelho e negando a Cristo, fazendo do sinal do sacramento “uma irrealidade”. A realidade significada pelos sacramentos é interna, imperceptível. Os mesmos são ordenados aos que crêem (também interior e impossível de se averiguar), e não foi dado como sinal visível à coletividade, mas como sinal privado, entre o crente e Deus. Administramos os sacramentos como “santos sinais” confiando apenas na profissão de fé daquele que pede tais sinais, pois assim nos ordena a Palavra de Deus. Mesmo administrando aos quais não temos certeza da realidade significada em suas vidas, isto não nos desautoriza a sua administração, pelo fato da realidade significada pelos sacramentos não poder ser averiguada como podemos averiguar a cura. O sinal do sacramento é diferente do sinal da cura (do óleo) porque o sinal do sacramento é um sinal entre você e Deus e também entre você e a Igreja, pois ela é uma testemunha, mas é um sinal que indica uma realidade que ninguém pode averiguar seguramente. Por isso não temos como ter certeza de ministrar somente aos convertidos. Mas a unção com óleo tinha, pois os presbíteros recebiam revelação de que haveria cura naquela pessoa. A natureza dessa realidade são profundamente distintas. Mas mesmo assim, os sacramentos nunca poderão ser administrados aos que não professarem a fé naquilo que eles significam.
PODE O ÓLEO OCUPAR UM LUGAR SACRAMENTAL NA IGREJA DE CRISTO?
Como já dissemos anteriormente, a unção com óleo não é um sacramento, como quer a Igreja Católica Romana. Sabe por que a extrema-unção é um sacramento na Igreja Católica? Porque se a Igreja Romana não fizesse da unção com óleo um sacramento ela não teria como transpor as barreiras culturais desta unção com óleo. Ela tornou este ato um sacramento para que ele pudesse subsistir em todas as nações. Não foi instituído como tal por Cristo, nem reconhecido pelos apóstolos. Uma pergunta importante deve ser feita a esta altura:
O que faz o óleo ser um elemento observado por todas as culturas, se o mesmo consiste de simbolismo terapêutico de uma cultura primitiva?
Essa pergunta é realmente importante, pois nos faz questionar sobre alguns princípios básicos para a vida da igreja quanto à unção com óleo:
1) Nenhum comentarista reformado entende algo além de um simbolismo na unção com óleo. Só o catolicismo e os movimentos de sinais e maravilhas vêem, de maneira antibíblica algo mais naquele ato. Os reformados sabem que o caminho não é este porque não é o caminho bíblico.
2) Esse simbolismo nasceu numa cultura primitiva que usava o óleo para funções de cura, o que ainda na era apostólica tornou-se um símbolo da operação sobrenatural de Deus. O simbolismo da cura era espiritual, pois o óleo não tinha poder algum. O poder vinha do alto. Antes de ser usado pelos apóstolos, o óleo já representava cura, ele apenas ganhou um significado de cura divina porque os apóstolos usaram-no para curar enfermidades tais que o óleo não pode curar. Então o elemento tornou-se símbolo de fé porque o povo de Deus, naquela época, quando fazia uso do óleo afirmava: “Haverá cura”. Presbítero passando com vidro de óleo na mão era evidência de que haveria cura divina. Essa é a compreensão que nos leva a entender que qualquer elemento que sinalizasse a operação divina era usado no Novo Testamento.
3) Se o óleo representava a cura, então ele é um simbolismo cultural que corresponde a qualquer elemento simbólico cultural de qualquer outra nação. Se em Israel o óleo representa a cura, em outra nação a cura pode ser representada por uma comida, uma veste, ou qualquer outro elemento cultural que de fato represente uma forma de curar ou total ou parcialmente os enfermos.
4) O elemento fixo no mandamento de Tiago não é a unção, mas a oração (este foi o elemento fixo que a Igreja observou durante todas as épocas e não a unção com óleo; eles curavam com qualquer coisa como: as mãos, com a palavra, deitando por cima, com a própria sombra...), pois se a unção com óleo fosse um elemento fixo para a fórmula da cura, ela teria funções sacramentais, e deveria ser observado pela igreja apostólica e pelos cristãos de todas as épocas (seria o método pelo qual as pessoas seriam curadas). Contudo, a igreja do Novo Testamento parece não dar muita atenção a esse ato, pelo fato deste não ter sido continuado nem ensinado nas outras epístolas.
5) Se a unção com óleo é algo simbólico não sacramental, então só pode ser simbólico-cultural. É sacramento? Não! Então é cultural. É o mandamento divino que está sendo ordenado à Igreja? Depende, porque a ênfase de Tiago não é ordenar à Igreja algo que não é um sacramento. Alguns comentaristas acham que Tiago está dando uma orientação no que já se fazia na época; não está dando uma revelação do elemento do óleo, mas sim uma orientação do que os apóstolos estariam fazendo desde a época de Jesus. Se for simbólico-cultural, não pode, obrigatoriamente, transpor as barreiras culturais de outras nações onde o símbolo da cura seja outra figura ou outro elemento empregados.
6) Para vencer essa barreira cultural, a Igreja Católica Romana instituiu o ato da unção com óleo como um sacramento entre os demais, recorrendo aos textos de Mc 6:13 e Tg 5:14. Esta seria a única maneira de fazer com que um elemento cultural fosse obrigatório como um princípio eterno da vontade de Deus para a vida da Sua igreja. Alguém poderia argumentar: Mas não está registrado na epístola? Resposta:
7) Ninguém insiste em que as ordens de Paulo quanto ao do ósculo para a igreja de sua época fosse para nós também. O princípio é que deve estar por trás, mas não obrigatoriamente os elementos culturais. Porque se fosse ordenada a unção seria um sacramento. Mas a Igreja não levou em conta isso. Quão estranho é que haja militantes em prol de uma sacramentalização de um elemento tão cultural como foi a unção com óleo na época de Tiago. O uso do óleo aconselhado por Tiago tem o mesmo valor dos conselhos que Paulo dava quanto ao ósculo. Estes elementos, para serem obrigatórios para a Igreja de Cristo deveriam ser ou sacramentos ou princípios espirituais da Lei de Deus. Mas a verdade é que nem óleo, nem ósculo constituem sacramentos ou princípios eternos da Palavra de Deus. Onde encontramos na Bíblia que óleo cura? Onde vemos que esta prática seja obrigatória partindo das Escrituras? Se fosse assim, os apóstolos teriam errado redondamente, pois não se vê seu uso nas epístolas e sim a oração.
8) Podemos observar, durante o nosso estudo, que a prática da unção com óleo é uma prática caracteristicamente judaica (o próprio Tiago reflete uma mentalidade judaica da época) e que com a expansão do Cristianismo para o mundo helênico, parece não ter havido mais ênfase no sinal judaico da cura.
Um certo comentarista levanta uma questão interessante. Ele afirma: “Perceba que a unção com óleo diz respeito a uma época em que a Igreja é caracteristicamente judaica. Quando a Igreja torna-se gentílica este elemento parece que não tem mais prática na Igreja”. Porque entre os judeus a prática do óleo era comum, mas entre os gentios não, pois eles usavam muitas coisas (até sangue), pois eram pagãos. Quando chegou a época de “juntar” todos debaixo de uma mesma Igreja, seria certo se usar um sinal judaico para sinalizar o fato? Muitas coisas foram usadas, mas este sinal não foi mais usado pela Igreja.
CONCLUSÃO
A CERTEZA DE TIAGO QUANTO À ORAÇÃO DA FÉ
Nos dias atuais podemos perceber muita gente interessada em unção com óleo. Além das novas seitas caracteristicamente pagãs e animistas, que fazem uso, não somente do óleo, mas de toda sorte de amuletos e relíquias, imitando o Catolicismo, o Espiritismo e o Baixo Espiritismo, temos muitos crentes em nossas Igrejas que defendem, ingenuamente o uso da unção com óleo, sem todavia observar os princípios bíblicos de Tiago.
Creio que o maior erro cometido por aqueles que fazem uso da unção com óleo é o de ungir os doentes sem a certeza de eles ficarão curados. E para isso é necessária uma revelação extraordinária, coisa que já cessou.
Se o óleo é usado sem nenhuma certeza da cura, então basta a oração sem fé. Não seria demais além da oração sem fé, também a unção sem fé? Se não há certeza, basta orar, porque se vamos usar o óleo sem certeza, este elemento que não sinaliza, não é mais sinal de cura e sim algo que vai “ajudar” na oração. Este é o raciocínio em que vamos cair. Não seria demais, além da oração sem fé, também a unção sem fé?
Se a unção é usada, se esperando que possa vir surtir algum resultado, então esse é o uso indevido da unção, que vai cair em outro erro que é o de achar que o óleo vai ajudar na cura. Se não estamos usando o óleo para sinalizar o que de fato existe, perguntamos: para que o estamos usando? Seria para ajudar na cura? Infelizmente, a maioria dos “ungidores” modernos caem neste erro. Por esta razão podemos ver muita gente trazendo óleo de Israel, levando óleo da igreja para casa, e até mesmo andando com um vidrinho de óleo no bolso.
Tiago não diz que a oração e a unção são um “reforço”, ou uma ajuda, ou que “pode vir” a ajudar o enfermo. Ele também não deixou nenhuma dúvida quanto à eficácia da oração da fé, nem tampouco disse que os crentes poderiam usar o óleo mesmo que não funcionasse. Nada disso é encontrado no texto. O óleo está intimamente ligado à eficácia da oração. É isso que ele representa. Toda idéia mágica ou sacralizadora do óleo vem de religiões pagãs e entraram no cristianismo com uma “roupagem” de Tiago. Mas o autor sagrado não trata a questão assim.
Para Tiago, a oração da fé salvará sempre o enfermo. Mas por que Tiago tinha tanta certeza disso? Por que Tiago diz que a oração da fé salvará? O que vemos hoje é apenas a possibilidade de alguém vir a ser curado. Mas ninguém se dá conta dos que não foram curados pela unção com óleo e a chamada “oração da fé”. Por que para Tiago havia tanta certeza em levantar o doente quando hoje se vê tanta falha nas curas? Por que a unção com óleo não falhava? (Sabemos que ela era um sinal do que Deus fazia em nome de Jesus). As possibilidades são duas:
1) Tiago usa o termo euch em vez de proseucomai. Isto quer dizer que ele não estava pensando em qualquer oração. A oração enfatizada por Tiago é um tipo de declaração confiante de que tudo o que se diz de fato acontecerá. Essa oração não é como muitas das nossas orações quando dizemos “Senhor se quiseres podes curar”. A oração da fé é aquela que as pessoas já têm certeza que é a vontade de Deus realizar. A certeza é tão grande que Tiago chama essa oração de “voto” (euch). Então, neste texto, a ênfase de Tiago não é em uma oração de risco, mas na oração da fé, ou traduzindo melhor, “o voto da fé”, pois quem ora e unge um enfermo apenas declara e ordena a cura daquele enfermo.
O mesmo sentido de euch é empregado mais adiante no versículo 16, “orai uns pelos outros para serdes curados”, onde ele emprega o verbo eucomai que, na literatura clássica tem o sentido de “fazer declarações confiantes acerca de si mesmo”. Neste texto, por causa do emprego de eucomai, a frase, “orai uns pelos outros para serdes curados”, só pode corresponder ao exercício do dom de cura, que somente pode ser exercitado mediante certeza absoluta de que a cura vai se realizar. Isso não significa que pela expressão “orai uns pelos outros”, Tiago esteja pensando em qualquer pessoa, e sim somente naquelas que têm o dom de cura. Devemos nos lembrar que a época de Tiago é a era apostólica, na qual o dom de cura ainda está presente na Igreja primitiva como credencial apostólica. Isso explica a razão porque Tiago afirma com tanta certeza que a oração (euch) da fé salvará o enfermo. É porque ele está se referindo ao dom de cura, e não a uma simples oração suplicando cura.
Mas surge uma pergunta: Como pode uma pessoa ter tanta certeza da vontade de Deus para realizar uma cura na vida da outra? Resposta: Revelação!
Tiago cita um modelo de oração da fé que é a oração de Elias. Quando vamos para o Velho Testamento, descobrimos que Elias não pediu algo sem saber qual era a vontade de Deus. Sua oração foi revelada antes de ser feita. Essa é a única maneira de se saber com certeza a cura do enfermo. Hoje temos a oração “misericordiosa”, onde se apela pela misericórdia de Deus. Mas a “oração da fé” era uma oração revelacional. O que havia era uma cura revelatória. Foi por esta razão que os apóstolos não falharam em uma só cura ou milagre, pois se isso acontecesse, eles seriam desmoralizados diante daquele mundo pagão e não teriam credenciais apostólicas. A fórmula que usaram, “em nome de Jesus”, reivindicava a mesma coisa quando também a usamos nos dias de hoje, pois a honra de Jesus está em jogo. Mas hoje as pessoas não estão advertidas disso quando “declaram” a cura de alguém e ela não acontece. Se declaramos em nome de Jesus e nada acontece, desonramos, diante do mundo, o nome do Deus Todo-Poderoso, pois estamos dizendo que Ele fará, enquanto nada acontece daquilo que dissemos que aconteceria. Essa é a marca do dom de cura – declarar de forma revelatória aquilo que vai acontecer. Aqueles que tinham o dom de cura não falhavam porque curavam mediante oração revelatória.
Vale salientar também que poucos foram os casos de oração revelatórias antes do ato acontecer. Geralmente as curas eram feitas através de atos, palavras (Atos 9:40 – neste caso ele ora não por cura, mas para ser revelada a vontade de Deus), gestos (Atos 9:12), ou símbolos. Em um caso, por exemplo, Paulo orou pelo pai de Públio, mas impôs as mãos, que era o sinal da cura. Este é um exemplo de Paulo orando para saber a vontade de Deus revelada. Esse era o modelo para o dom de cura. Era uma ordem. Hoje não se vê mais isso. O que vemos é uma longa oração por cura quando se declara várias vezes a restauração do doente e nada acontece. Ora, se dom de cura fosse orar assim: “Ó Senhor, nós suplicamos a cura desta pessoa”, então todos nós teríamos este dom. Mas o dom de cura é declarar a vontade de Deus e a pessoa infalivelmente levantar. Se não temos certeza da cura, não podemos fazer nenhum sinal, porque o sinal diz que há cura, e não que poderá haver. Muitos impõem as mãos achando que vão emitir poder, mas nada acontece. Isto consiste numa profanação do sinal (Calvino), porque o sinal é dado devido à certeza que a pessoa tem da eficácia de sua oração por corresponder exatamente à vontade de Deus. A razão porque as curas eram feitas freqüentemente através de atos era porque aqueles atos eram sinais de confirmação da cura. É claro e evidente que hoje as pessoas se arriscam mais em “gritar orações”, ou fazer algo mais parecido com a primitiva “dança da chuva” em torno de um enfermo, do que lhe dizer em tom calmo e confiante: Levanta-te! Isso só quem podia fazer era aquele que tinha a certeza da cura, a revelação de Deus.
2) A segunda possibilidade para a certeza da eficácia da oração da fé em Tiago é que o dom de cura estava em vigor na sua época. Calvino diz que Tiago teria ordenado enviar os presbíteros por que eles eram as pessoas que tinham dons de cura. O raciocínio de Calvino está correto pelo fato de não haver nenhuma indicação no Novo Testamento de que a cura seria uma exclusividade para oficiais da igreja. Se os dons de cura foram dados à Igreja da era apostólica como um todo, por que então Tiago orienta a chamar só os presbíteros? Por que não chamar qualquer irmão que tivesse o dom de curar? Ora é claro que a cura poderia ser feita por qualquer membro da igreja, se assim tivesse ele o dom. Não há qualquer contra indicação quanto a isso. A única reposta que temos para essa preferência de Tiago pelos presbíteros era que, na era apostólica, muitos presbíteros tinham dons espetaculares do Espírito. Se a oração dos presbíteros fosse uma oração qualquer (o que já provamos que não é), como as que são feitas de modo geral por todos os enfermos nas reuniões de oração ou nas visitações aos doentes, então Tiago teria ordenado que os crentes mesmo orassem pelo enfermo. Se a questão era orar pelo enfermo, todos podiam fazer. Mas se a questão era curar o enfermo, só quem tinha o dom podia fazê-lo. Essa é a conclusão a que chegamos. Tiago não está enfatizando, com euch, o ato de orar (pois isso ele faz com proseucomai), mas a ênfase no resultado da oração.
Algumas perguntas que se faz:
1. P. Há, nos nossos dias, esta “oração da fé” no nosso meio?
R. Esta oração revelatória já cessou. Deus ainda cura, mas não pelo modelo profético e de revelação. Deus não deseja mais dar uma credencial apostólica a uma “fé” que se tem hoje. O Pastor (ou mesmo qualquer irmão) pode orar por uma pessoa e Deus pode fazer um milagre por que Ele é Deus Todo-Poderoso. Mas a oração que ordena, essa cessou! Porque hoje não há mais o dom de uma pessoa curar, porque se assim fosse, ela seria “sacralizada”. Na época apostólica eles faziam isso porque tinham autoridade revelacional de Deus, porque estavam sob a autoridade dos apóstolos que eram o fundamento da Igreja. Para ser fundamento da Igreja tem de se ter credencial. Hoje a ordem é pregar e a fé que cura virá. A ordem nunca foi para se curar multidões. Nem Paulo fazia isso. Os apóstolos curavam para autenticar (demonstrar credenciais) a mensagem que anunciavam de que o Deus verdadeiro era aquele que operava. Como toda a aliança se inaugura com profecias e sinais, a Nova Aliança também. Deus cura ainda hoje? Sim, Ele é o mesmo. No entanto não há mais necessidade de dom de cura.
2. P. Quando dizemos que este dom cessou, não estaríamos limitando o poder de Deus?
R. Respondemos perguntando: Deus dá dons extraordinários à Igreja hoje? Se você disser que sim, deve também responder à indagação: Porque a maioria das igrejas não tem este dom? Será porque o povo não jejua, porque não ora, ou porque é fraco? Será que dom é algo condicionado a isso. Dom seria algo condicional ou uma dádiva especial de Deus? Dom é dádiva, não é algo condicional. O que dizer da igreja de Corinto. Os crentes daquela igreja eram espirituais ou carnais para que recebessem aqueles dons? Paulo diz que eles eram carnais. Além do mais, muitas pessoas falam de coisas extraordinárias que têm acontecido. Mas será que isso tudo é verdade? Tenho visto pessoas falarem de profetas mais parecidos com adivinhos do que com os profetas descritos na Bíblia e que estão dentro das igrejas. A grande pergunta é: Com que propósito Deus credenciaria estes profetas ou realizadores de curas hoje? O Novo Testamento tanto quanto o Velho Testamento nos mostra que estes sinais não tinham um fim em si mesmo, o propósito não era a cura em si mesma. Estes sinais sempre tiveram um caráter de credenciar a mensagem pregada para revelar Jesus, o Salvador (caráter histórico-redentivo). Os que tinham dom de cura não nunca falhavam. Isso acontece hoje? Será que hoje alguém tem uma revelação infalível de que aquele doente será curado?
3. P. Um missionário em um país distante não poderia realizar curas com este propósito semelhante ao da era apostólica?
R. Temos de ter cuidado com esta afirmação. Podem acontecer coisas extraordinárias, é verdade. Não negamos. Mas, não como dom. O modelo para ser missionário e que fará o homem conhecer a Jesus não é este, não é fazer sinais e maravilhas, não são milagres. O milagre sempre serviu para “colocar no papel” a verdade de Deus, autenticar a verdade revelada na Escritura. Era importante para dar as credenciais do que estavam anunciando na era apostólica, mas a Bíblia nos diz claramente que agora a fé vem pela pregação. Este é o modelo determinado por Deus para se fazer missões e evangelizar. Não há outra ordem para nós hoje. Muitos pensam que os milagres realizados na era apostólica eram para que as pessoas se convertessem, mas não era. A maioria viu e não se converteu. Era para dar credencial da verdade para o mundo e não só para algumas pessoas em especial. Era para nós hoje, para o mundo, para a Igreja de todas as épocas. Vemos isso em Jo 20:30-31. Jesus realizou muitos sinais que não foram escritos, mas alguns foram escritos para que eles cressem que Ele era o Filho de Deus, mas hoje não precisamos de sinais. Hoje é a pregação e não sinais. Jesus disse para os judeus, escribas e fariseus que pediam sinais: “Vocês pedem sinais porque são uma geração de incrédulos!”. Muitos querem ver para crer, sim, mas os sinais que Jesus realizou, Ele e os apóstolos, além dos que estavam sob a égide apostólica tinham um caráter autenticador da Palavra (Atos 14:3; Romanos 15:18-19; II Co 12:12; Hebreus 2:3-4). Deus ainda cura hoje, mas o faz por misericórdia, por amor; não é para evangelizar. Estes programas de cura para encher as igrejas estão errados, pois a ordem é: “Assim está escrito que o Cristo havia de padecer, e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados...” (Lc 24:46-47). Vemos pregação de arrependimento hoje? A maioria das mensagens de hoje não trata desta questão. Ouçam as mensagens dos evangelistas de rádio e TV. Na verdade o Evangelho não é pregado e sim a ênfase tem sido em milagres e testemunhos emocionais. A coisa mais extraordinária que existe é alguém que está caminhando para o inferno, ouvir o Evangelho, converter-se e caminhar para o céu. Este evangelho que leva o homem ao arrependimento é o que devemos pregar
Fonte: Revista Os Puritanos, 02-2002
http://ospuritanos.blogspot.com/ acesso em 05/02/2011
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