Mostrando postagens com marcador institutas de calvino. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador institutas de calvino. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

SALVOS PELA GRAÇA


por João Calvino

Eu vos tenho amado, diz o SENHOR; mas vós dizeis: Em que nos tens amado? Não foi Esaú irmão de Jacó? — disse o SENHOR; todavia, amei a Jacó… Malaquias 1.2
Ao afirmar que amou os judeus, em vez lhes impor a autoridade que tem sobre toda a humanidade, Deus tinha o objetivo de convertê-los da ingratidão com que desprezavam o favor singular que lhes fora concedido com exclusividade. A origem de toda a excelência pertencente à posteridade de Abraão é atribuída aqui ao amor gratuito de Deus, conforme dissera Moisés muitas vezes: “Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, (…) mas porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais” [Dt 7.7]. Vemos que não somos iguais aos animais, pois aprouve a Deus nos criar como homens. Portanto, se não o servirmos, com justiça nos acusará ele de ingratidão, pois para servi-lo foi que nos criou à sua própria imagem. Aqui, porém, menciona-se um favor especial: que o Senhor tomou para si a semente de Abraão, como consta no cântico de Moisés; que todas as nações pertencem a Deus, mas ele separou Israel para si mesmo (Dt 32.9). Com o termo “amor”, o Senhor quer dizer favor gratuito. Não temos por que procurar qualquer outra justificativa para adoção, a não ser a vontade de Deus. O amor gracioso e a misericórdia gratuita de Deus prevalecem em prol dos indivíduos.
Oração
Concede, ó Deus onipotente, que assim como foi do teu agrado nos adotar de uma vez para sempre como teu povo, para que fôssemos como que enxertados no corpo do teu Filho, e conformados dessarte ao nosso Cabeça, — ó concede que durante toda a vida nos esforcemos ao máximo para selar no coração a fé da nossa eleição; para que sejamos mais estimulados a te obedecer em verdade e que a tua glória se manifeste também por nosso intermédio; para que nos empenhemos em trazer aqueles a quem escolheste juntamente conosco, e assim te exaltemos unânimes como o Autor da nossa salvação e te glorifiquemos pela tua bondade, de sorte que, havendo lançado fora e renunciado toda a confiança em nossa virtude, sejamos conduzidos a Cristo somente como a fonte da tua eleição, no qual também está firmada perante nós a certeza da nossa salvação mediante o teu evangelho, até que ao fim sejamos reunidos a ele na glória eterna que adquiriste para nós com o seu próprio sangue. Amém.

Fonte: Devotions and prayers of John Calvin, 52 one-page devotions with selected payers on facing pages. Org. Charles E. Edwards. Old Paths Gospel Press. S/d. Pags. 112 e 113. Tradução: Marcos Vasconcelos, junho/2010.

http://monergismo.com/?p=2487 Acesso em 19/02/2011

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O CONHECIMENTO DE DEUS FULGE NA OBRA DA CRIAÇÃO DO MUNDO E EM SEU CONTÍNUO GOVERNO - JOÃO CALVINO


1. INESCUSABILIDADE DO HOMEM
Além de tudo isso, visto que no conhecimento de Deus está posto a finalidade
última da vida bem-aventurada, para que a ninguém fosse obstruído o acesso à feli-
cidade, não só implantou Deus na mente humana essa semente de religião a que nos
temos referido, mas ainda de tal modo se revelou em toda a obra da criação do
mundo, e cada dia nitidamente se manifesta, que eles não podem abrir os olhos sem
se verem forçados a contemplá-lo. Por certo que sua essência transcende a compre-
ensão, de sorte que sua plena divindade escapa totalmente aos sentidos humanos.
Entretanto, em todas as suas obras, uma a uma, imprimiu marcas inconfundíveis de
sua glória, e na verdade tão claras e notórias, que por mais brutais e obtusos que
sejam, tolhida lhes é a alegação de ignorância.
Daí, com mui procedente razão exclama o Profeta [Sl 104.2] que ele se veste de
luz como de um manto; como se quisesse dizer que a partir de então começara a
mostrar-se de forma insigne em ornato visível: desde o instante em que, na criação
do mundo, exibiu seus adereços, em virtude dos quais agora, quantas vezes volve-
mos os olhos para qualquer lado, sua glória nos é patente. Ainda nesta mesma pas-
sagem, com admirável arte, o mesmo Profeta compara os céus, como se acham
expandidos, a seu régio pavilhão; diz que nas águas fincou os vigamentos de suas
recâmaras; que as nuvens lhe são carruagens; que sobre as asas dos ventos cavalga;
que os ventos e os relâmpagos lhe são os mensageiros velozes. E visto que mais
plenamente nas alturas lhe refulge o esplendor do poder e da sabedoria, em várias
ocasiões o céu é chamado de seu palácio.
E, em primeiro lugar, para todo e qualquer rumo a que dirijas os olhos, nenhum
recanto há do mundo, por mínimo que seja, em que não se vejam a brilhar ao menos
algumas centelhas de sua glória. Nem podes, realmente, de um só relance contem-
plar quão amplamente se estende esta vastíssima e formosíssima engrenagem, que
não te sintas de todos os lados totalmente esmagado pela imensa intensidade de seu
fulgor.
Essa é a razão por que, com finura e arte, o autor da Epístola aos Hebreus [11.3]
chama aos mundos de expressões visíveis das coisas invisíveis, já que essa ordem


tão admiravelmente estruturada do universo nos serve de espelho em que podemos
contemplar ao Deus que de outra sorte seria invisível. Razão pela qual o Profeta
atribui [Sl 19.1] às criaturas celestiais uma linguagem desconhecida a toda e qual-
quer nação, visto que aí se patenteia com mais evidência a comprovação da divinda-
de do que deve escapar à consideração de qualquer pessoa, por mais retrógrada seja
ela. O Apóstolo, expondo isso mais explicitamente [Rm 1.19], diz haver sido reve-
lado aos homens o que se fazia necessário para o conhecimento de Deus, visto que
todos à uma contemplam suas coisas invisíveis, até seu eterno poder e divindade,
dados a conhecer desde a criação do mundo.
2. VISIBILIDADE DA SABEDORIA DIVINA
Inumeráveis são, tanto no céu quanto na terra, as evidências que lhe atestam a
mirífica sabedoria. Não apenas aquelas coisas mais recônditas, a cuja penetrante
observação se destinam a astronomia, a medicina e toda a ciência natural, senão
também aquelas que saltam à vista a qualquer um, ainda o mais inculto e ignorante,
de sorte que nem mesmo podem abrir os olhos e já se vêem forçados a ser-lhes
testemunhas.
De fato, quantos nessas artes liberais à farta se abeberaram, ou mesmo apenas
de leve as experimentaram, ajudados por sua contribuição, são levados muito mais
longe na penetração dos segredos da divina sabedoria. Todavia, ninguém, ao igno-
rá-las, é impedido de ver nas obras de Deus bastante ¬ e mais do que bastante! ¬ de
arte donde se possa arrojar-se à admiração do Artífice.
Sem dúvida que para investigar os movimentos dos astros, determinar-lhes as
posições, medir as distâncias, notar as propriedades, requer-se arte e a mais rigorosa
aplicação. Como, ao serem essas coisas perscrutadas, mais explicitamente se proje-
ta a providência divina, assim, para contemplar-lhe a glória, impõe-se à alma que se
eleve um tanto mais alto. Quando, porém, nem mesmo a pessoa mais simples e as de
cultura mais elementar, que foram ensinadas só pelo recurso dos olhos, não podem
ignorar a excelência da divina arte a revelar-se profusamente nesta incontável e,
além do mais, particularmente distinta e harmoniosa variedade da milícia celestial,
salta à vista que não existe ninguém a quem o Senhor não manifeste sobejamente
sua sabedoria.
De igual modo, perscrutar na estrutura do corpo humano, com essa perspicácia
que Galeno aplica, a correlação, a simetria, a beleza, o funcionamento, é tarefa de
exímia habilidade. E todavia, confessam-no todos, o corpo humano revela composi-
ção tão engenhosa que, à sua vista, com razão, quão admirável se julgará ser o
Artífice.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O HOMEM ANTE A MAJESTADE DIVINA - JOÃO CALVINO


Daqui esse horror e espanto com que, a cada passo, apregoa a Escritura terem os santos sido tocados e afligidos, sempre que sentiam a presença de Deus. Quando, pois, vemos aqueles que, não lhe considerando a presença, seguros e firmes se mostravam, mas, em manifestando ele sua glória, tão abalados e aterrados se quedavam, como se fossem prostrados pelo pavor da morte, mais até, a tragá-los, e quase aniquilados, deve concluir-se daí que o homem não é jamais tangido e afetado suficientemente pelo senso de sua indignidade, senão depois de comparar-se com a majestade de Deus.

E desta consternação temos numerosos exemplos, tanto em Juízes quanto nos Profetas. Tanto assim, que essa expressão veio a tornar-se costumeira entre o povo de Deus: "Morreremos, pois que nos apareceu o Senhor." De igual modo, também a história de Jó, com o fito de quebrantar os homens pelo reconhecimento de sua estultícia, fraqueza e corrupção, sempre o argumento mais importante é extraído da descrição da divina sabedoria, poder e pureza [Jó 38.1­40.5]. E não sem razão, pois vemos como Abraão melhor se reconhece como sendo terra e pó desde que se chegou mais próximo à contemplação da glória do Senhor [Gn 18.27]; como Elias não
ousa, de face descoberta, atentar para a manifestação [1Rs 19.13], tanto a presença divina o moveu de terror!

E que haja de fazer o homem, podridão [Jó 13.28] e verme que é [Jó 4.7; Sl 22.6], quando até mesmo os próprios querubins deviam cobrir o rosto, movidos desse pavor? [Is 6.2]. É isto com efeito o que diz o Profeta Isaías: "Enrubescer-se-á o sol e confundir-se-á a lua, quando o Senhor dos Exércitos vier a reinar" [Is 24.23], isto é, quando revelar seu fulgor, e mais perto o trouxer, diante dele se cobrirá de trevas tudo quanto de mais esplêndido exista [Is 2.10, 19].

UNIVERSALIDADE DO SENTIMENTO RELIGIOSO


Que existe na mente humana, e na verdade por disposição natural, certo senso da divindade, consideramos como além de qualquer dúvida. Ora, para que ninguém se refugiasse no pretexto de ignorância, Deus mesmo infundiu em todos certa noção de sua divina realidade, da qual, renovando constantemente a lembrança, de quando em quando instila novas gotas, de sorte que, como todos à uma reconhecem que Deus existe e é seu Criador, são por seu próprio testemunho condenados, já que não só não lhe rendem o culto devido, mas ainda não consagram a vida a sua vontade.

Certamente, se em algum lugar se haja de procurar ignorância de Deus, em nenhuma parte é mais provável encontrar exemplo disso que entre os povos mais retrógrados e mais distanciados da civilização humana. E todavia, como o declara aquele pagão,¹ não há nenhuma nação tão bárbara, nenhum povo tão selvagem, no qual não esteja profundamente arraigada esta convicção: Deus existe! E mesmo aqueles que em outros aspectos da vida parecem diferir bem pouco dos seres brutos, ainda assim retêm sempre certa semente de religião. Tão profundamente penetrou ela às mentes de todos, que este pressuposto comum se apegou tão tenazmente às entranhas de todos!

Portanto, como desde o princípio do mundo nenhuma região, nenhuma cidade, enfim nenhuma casa tenha existido que pudesse prescindir da religião, há nisso uma tácita confissão de que no coração de todos jaz gravado o senso da divindade. Aliás, até a própria idolatria é ampla evidência desta noção. Pois sabemos de quão mau grado se humilha o homem para que admire a outras criaturas acima de si mesmos. Desse modo, quando prefere render culto à madeira e à pedra, antes que seja considerado como não tendo nenhum deus, claramente se vê que esta impressão tem uma força e vigor prodigiosos, visto que de forma alguma pode ser apagada do entendimento do homem,²de modo que é mais fácil que as inclinações naturais se quebrantem, as quais, desta forma, na realidade se quebrantam quando, de seu arbítrio, o homem desce daquela altivez natural às coisas mais inferiores para que assim possa adorar a Deus.